sábado, 9 de junho de 2012

Ser sem medo e viver intensamente (Minha experiência de DJ)


Foi com o “Greatest Hits”do Gypsy Kings, e o antológico “Mais” de Marisa Monte que descobri que música é muito mais que uma sucessão de notas sob um arranjo harmônico. É a manifestação de um sentimento reprimido, a exaltação de uma voz calada, a vontade de fazer o outro entender aquilo que a poesia por si só não seria capaz de explicar. E eu devia ter só uns 7, 8 anos. Estava sacramentada a minha paixão por vinis, cassetes e CD’s.
Daí, tudo virou coleção, teve a fase de músicas infantis com Balão Mágico, “Trem da Alegria” e os desconhecidos “Os Abelhudos” (vale a pena conferir). O país se rendeu a batida do axé e o acervo foi crescendo com Daniela Mercury, Banda Eva, É o Tchan!, Cheiro de Amor, Tonho Matéria. Mas já exausto do mesmo, tive que buscar o novo no campo internacional, e graças a Deus, o final dos anos 90 nos agraciou com Britney, Backstreet Boys, Hanson e outros fenômenos pop. Enfim, poderia divagar linhas e mais linhas sobre meu histórico musical, mas o que importa aqui é mostrar o quanto o caminho de construção do meu acervo discográfico foi trilhado sem preconceitos, sempre buscando o que há de mais sincero na música. (pode até parecer meio utópico essa babaquice de “sem preconceitos”, mais adiante fará sentido).
Entre festinhas e encontros de amigos, sempre fiquei encarregado de montar a playlist. E taí uma função que nunca me desgastou, faço com todo o prazer. Penso na ocasião, no público, no momento e me deleito horas pensado: “Essa aqui vai fazer o povo cantar junto, essa vai fazer o povo vibrar, já essa outra é pra rir mesmo.” Sob o efeito de cervejas e caipiroskas, alguns amigos já cantavam: “E aí? Quando é que você vai assumir logo o seu lado de DJ?” “Quando é a sua estréia como profissional?” Após ouvir as mesmas perguntas por tantas vezes, você mesmo se questiona “Será?” E não deu outra, um amigo de faculdade, sócio de uma das maiores boates de Brasília (pra mim, a mais divertida e interessante), me convidou para tocar numa de suas festas. “E aí? Tá afim de tentar lá na Vic?” Aceitei sem delongas e por um mês, me debrucei sobre o computador na construção do meu primeiro set: Luv Is A Party That Never Ends. A sorte estava lançada e foi um sucesso! Após esse, mais convites surgiram e aí veio o We’re Gonna Rock Together, o Na Senzala é Mais Gostoso (pra quem quiser baixar e conhecer o meu trabalho, só clicar no link) até o mais recente, construído em parceria com esse mesmo amigo, Ricardo Lucas, o London Fever.
Se me perguntam “que tipo de música você toca?” só tenho uma resposta: boa! Música boa! Não posso me rotular com um gênero (house, pop, electro, rock) porque eu não sou assim. Todo estilo tem sua força, sua mensagem e prender-se a um é ignorar várias preciosidades que podem encantar o público. SIM! Encantar! Esse é meu maior e principal objetivo, fazer com que as pessoas não saiam de suas casas para mais uma balada, mas que tenham uma noite memorável, que desperte conversas e risadas no dia seguinte, que seja motivo de lembranças por semanas, meses, talvez anos. É assim que se constrói a trilha sonora de uma vida e se no meu papel de DJ eu puder contribuir com ao menos uma canção, já sinto que deixei um legado.
Sei que tudo isso pode parecer muito cafona, e de fato é, porque já não tenho medo de assumir meu gostinho popular. O gosto do povo é maravilhoso! Foi-se o tempo em que reprimia minha essência para tentar me encaixar num padrão comum. Foda-se o comum! O único medo que carrego hoje é o de soar óbvio demais, ser mais do mesmo. Quem tem medo de assumir que curte Gustavo Lima precisa buscar um terapeuta urgente! Não é que todo mundo é obrigado a gostar do popular, mas vejo que as pessoas estão sempre preocupadas em parecer sérias, maduras, cheias de objetivos e acham que isso só é possível quando se ouve, Chico, Caetano e Maria Gadu. Nada contra esses artistas, eles tem seu valor. Mas sambar miudinho ao som do Exalta ou ir até o chão quando toca Gaiola não te faz menos inteligente, nem mesmo imaturo. Pelo contrário, só demonstra que você se pemite viver intensamente.
Quem me vê tocar deve achar que sou louco, porque eu canto junto, bato palminha, faço coreô, interpreto, praticamente um performer. E é o que eu quero passar sempre. As boates e baladas da vida são mais escurinhas para isso, a bebida é só um empurrãozinho para nos libertar e por aquelas horas sermos quem quisermos ser. Brincar, se divertir! Enfim, SE PERMITIR! Para finalizar, coloco aqui um pequeno texto que escrevi ontem, horas antes de entrar em ação como DJ. Serviu para ontem e deve servir para todos que querem curtir uma boa noite: “Permita-se! Simplesmente deixe o corpo fluir na batida da música. Divirta-se! Renove-se! SEJA! Sem medo! Aqueles que apontam, sempre apontarão (Haters gonna hate). A vida é muita curta para não ser e simplesmente parecer. SEJA! ENTREGUE-SE! Até o corpo não mais aguentar! E quando a energia chegar ao fim, lembre-se que o fim é a oportunidade de um novo começo!”
            De presente, fiquem com essa música de um do mais geniais artistas da atualidade, pouquíssimo conhecido, mas que em suas letras fala muito do que acredito (Tire minha liberdade/ Me transforme numa memória/ Eu não tenho uma voz / Eu não preciso de escolhas / Isso não é parte de mim / Isso é quem EU SOU!). Com vocês, a maravilhosa obra de Frankmusik: I AM

Cézar Almeida é mais um dentre tantos no meio de muitos, mas é só me dar um palquinho que eu te provo que posso ser único.




sexta-feira, 8 de junho de 2012

TRAVESTI DE FAMÍLIA

Minha vida nunca foi fácil. Nunca será. Apesar de eu adorar viver, sei que vou levar muitos nãos por ser quem eu sou. Eu tentei, tenho várias testemunhas da minha tentativa de ser “normal”. Namorei, transei como se fosse hétero, me casei com uma mulher, me fiz de homofóbico, enfim, fiz a minha lição de casa por 28 anos. Por 28 anos eu assisti a minha vida passar. Por 28 anos eu usei máscara.

É, meus amigos, mas descobri de forma dolorosa que as máscaras caem. E a minha caiu. Daqui a pouco eu conto pra vocês como foi.

Muito prazer, meu nome é Sabrina e eu sou uma transexual MTF na fase andrógina.

 Nunca aceitei ser menino, mas sabia que não era comum meu desejo por ser menina. Então eu me escondia. Eu era uma muralha intransponível. Meus pais eram muito pobres e não podiam me proporcionar luxo nenhum.  Eu era uma criança quieta e obediente, nunca fiz birra por querer algo que eles não podiam me dar. Eu sabia já nessa época que não seria correto. E também nunca os questionei sobre meus sentimentos, sob essa mesma ótica. “Como assim? Eu não posso ser menina! Eu nasci menino, ora bolas!” Um dia eu fui à missa com meus pais e o padre falou: “Deus realiza o impossível”. Eu fui pra casa e rezei: “Deus, se o Senhor realiza mesmo coisas impossíveis, quebra um galho pra mim, por favor! Me transforme numa menina!” Bom, não preciso dizer que meu pedido não foi realizado. Pelo menos não naquele momento.

Minha adolescência foi muito foda. Hormônios à flor da pele, descobertas a serem feitas (principalmente descobertas sexuais) e eu me esquivando disso tudo. Eu sempre repeti pra mim mesma que esse negócio de querer ser menina seria passageiro. Sempre acreditei numa espécie de cura. E nesse autoengano eu levava a minha vida. Meu primeiro beijo foi aos 17. Beijo de língua, beijo de saber o gosto da boca de outra pessoa. Minha primeira transa foi com uma mulher (pessoa maravilhosa, diga-se de passagem. Sou fã dela!) aos 23 anos. Com essa mulher me casei e tive certeza de que a amava. Amava não, amo! Nunca vou deixar de amá-la. Ela foi a minha primeira e última mulher. A única! Mas o tesão acabou............ela não aguentou a pressão..............eu não aguentei a pressão...........nós cedemos, nos arrebentamos juntos, de mãos dadas, de cara no muro de concreto. Contei tudo pra ela! Era tudo ou nada. Me abri pela primeira vez a alguém. A ela. Por ela e por mim. Por nós! Joguei todas as minhas cartas na mesa, apostei todas as fichas. Era ganhar ou perder, não tinha outra saída. Perdi... Ah, 2008 terrível! Ainda bem que você acabou! Eis aí a queda da minha máscara.

Bom, o que dizer da minha vida? Às vezes, adoro ser eu. Tenho o melhor dos dois sexos. Tenho a força do homem e a sensibilidade da mulher. Adoro carro antigo, vídeo game, filme violento e detesto novela (coisas de homem), mas também adoro unhas bem feitas, cabelo hidratado, pele lisinha e tenho uma preguiça tremenda de futebol (coisas de mulher). Às vezes detesto ser eu. Não sei se participo dos dois gêneros ou se não participo de nenhum. Isso me causa uma sensação ruim às vezes. O ser humano tem essa necessidade de pertencimento a alguma coisa. Precisamos de rótulos pra colar em nossas testas.




As pessoas me olham na rua e ficam com uma interrogação na expressão. Eu acho divertidíssimo! Um vendedor ambulante me chamou de moça outro dia. Ganhei aquele dia! Um cara me viu no banheiro masculino e me confundiu com uma mulher. Ficou em dúvida se tinha entrado no banheiro errado. Ontem fui a uma festa e o segurança não sabia o que fazer. Se me dava o baculejo ou não. Adoro essas situações! Já as pessoas que sabem e me conhecem passaram a me respeitar ainda mais. Não sei se por eu hoje ser uma pessoa completa, autêntica, ou por algum tipo de piedade, coisa que eu rejeito. Prefiro pensar que é por reconhecimento mesmo da melhora visível da minha autoestima. Tenho amigos maravilhosos! Tenho pais e irmãos maravilhosos! Quanto a isso, estou tranquila.

A noite é minha companheira. Fico muito mais à vontade à noite. Boates, festas, Vick! Oficina! Rio de Janeiro! Adoro! Maquiagem, salto alto, decote, saia curta....Adoro minhas pernas, sabiam? São grossas e bem torneadas. E dei sorte de ter mãos e pés pequenos. Comprar sapatos não é problema nenhum pra mim. Aliás, eu tenho um monte! Uns 20 pares! E sei a história de cada um. Meu cabelo é cacheado e enroladinho, parece até que eu vivo fazendo babyliss. Uma menina me perguntou “como você faz pro seu cabelo ficar assim tão cacheadinho?” Eu disse “deixo crescer”. Simples assim. Mas a noite acompanha um certo revés. As pessoas “normais” pensam que somos vampiros, que ficamos dormindo durante o dia dentro de um caixão e só saímos de nossas catacumbas à noite. Eu também tenho vida diurna, sabiam? Eu trabalho, vou ao shopping, ao supermercado, exatamente como os ditos“normais”.  E se engana quem pensou que eu sou prostituta. Nada contra, de verdade mesmo. Quem sou eu pra ter preconceito, não é mesmo? Mas pra ser prostituta, ou pra ser atriz, ou médica, ou piloto de avião, tem que ter vocação. E eu não tenho pra nenhuma dessas profissões. Sexo não me faz tanta falta, eu não tenho veia artística suficiente pra ser atriz, não gosto de ver sangue e não tive a oportunidade quando mais nova de tentar a carreira de piloto de avião. Tá justificado? Pra mim está. É isso que importa.

Tenho um amigo gay. O mais gay que eu já conheci. E maravilhosamente gente boa. São raras pessoas com um coração tão puro quanto o dele. A mãe dele está temerosa quanto à nossa amizade. Ela diz que eu sou má influência. “É com esse tipo de gente que você anda?” Sempre fui uma pessoa correta. Ela não me conhece. Nunca conversou comigo. Foi a primeira vez que eu sou apontada como sendo má influência para alguém. O ser humano é muito maldoso. Parei pra pensar sobre o ocorrido e me bateu uma tristeza profunda. Quantas pessoas mais vão me apontar e dizer que eu sou má influência? Foda-se! Foda-se! Fodam-se os hipócritas que se lambuzam de prazer com as travestis à noite e falam mal de homossexuais durante o dia! Foda-se a tia do mercado que fala mal das travestis, mas não daria emprego a uma em seu estabelecimento! Foda-se o empresário que põe chifre na esposa e depois vem falar que a gente é que é promíscuo! Foda-se! A sociedade tem uma imagem deturpada das pessoas que não seguem o padrão heterossexual. Pensam que nós somos máquinas de fazer sexo. Que somos a promiscuidade em pessoa. Como diria a Bete, uma atriz maravilhosa a quem eu tive o prazer de prestigiar: “Não insultem a minha Inteligência. Eu sei que o problema é com a minha genitália.” A sexualidade humana é muito mais ampla que essa coisa engessada que a sociedade construiu. Não entendo o motivo de tanto alarde. Fundamentalistas religiosos nos agridem com palavras e safanões em nome do “amor de Deus”. Tudo isso porque eu quero adequar o MEU corpo. O MEU, não o de vocês. MEU, que Deus me deu. Se eu estiver errada, deixa que eu me acerto com Ele depois, OK? Não preciso de intermediários pra falar com Deus.

Nesse momento estou confortavelmente metida numa camisola rosa, deitada no meu pufe, hidratando o meu cabelo e revisando o texto que eu acabei de escrever pra vocês.  Uuuuuuuuiiiii!!!



Sabrina é uma transexual em fase andrógina, que pretende realizar seu sonho da cirurgia de redesignação sexual dentro de  5 anos e é amiga da Iza Cavanellas





quinta-feira, 7 de junho de 2012

Monólogo


- Um rodamoinho vai te trazendo pro meio das coisas. (pausa) Vejo tudo assim, rodamoinhos.(pausa) Fico todo arrepiado pra qualquer coisa, tudo que eu faço é como se fosse a coisa mais importante que já fiz. O que escuto é a coisa mais ..não sei.. que já escutei.O, o ribombar, ribombar do som, a história mais triste. Mais bonita, tudo que vale a pena tá lá, você tá entendendo?(pausa)O trocar desses sons, me fazem abrir os olhos, e no momento que pára, fecham. Quando meus olhos abrem, acho que sou o maior gênio do mundo!(pausa)porque olha: Eu descobri o sentido da vida! EU! Só pra esquecer depois.(rápido) Quando esse grito pára. O sentido pára. Os olhos fecham. O Rodamoinho pára. Os pêlos voltam, a história é boba, os olhos fecham. Que merda.

- me lembro do mar.(pausa) Ele fazia um som também. Era razoável. Não é que nem esse. O mar é meio intocável.(rápido) Isso me toca tanto, me sinto nu no escuro, rezando alto pro céu da noite por algo que nem sei.(pausa) E mesmo assim, sozinho seriam as palavras mais prazerosas. Com certeza as mais certas, que diria.

- Não quero nem saber quais são, fico com um medo pior que o da morte. De saber de vez que a vida não tem mistério. Só tem esse som, que me tira o véu do mistério da vida. Que vai se repetir até meu último dia. Me puxando pro meio do universo. Rasgando tudo que existe entre eu e deus..uma voz. Se rasgando pra mim...não quero saber, mas acabei de dizê-las. As palavras mais certas.

- Que digo.



Matheus Alpino é um jovem boêmio de bigode e uma das mentes 'brilhantes' por trás do Black Metal, Porra!. Ele escreve letras que grita em músicas em que é quase impossível entender a letra, e compra discos de vinil sem ter um toca discos.


quarta-feira, 6 de junho de 2012

À brisa do docinho da Ca Ipora

À brisa do docinho da Ca Ipora
Ruan J.[1]
Chegou Piroli. Chegava de manhã.
Fernanda andava por lá, tinha chegado na noite anterior, sua fama a antecedeu por mais de mês.
Aqui narro de seu amigo Vitório que tantas fez e tanto quis que acabou retornando. Chamava assim com um nome que refuta sua condição, nunca ganhou nada e muito pestanejou querendo ganhar tudo que se fez carta branca no mundo... A ele tudo era permitido, arreganhava-se com licença poética, dava de ombros à existência do alto da sua condição de café-com-leite. E sempre faltou paciência para tudo enquanto tinha de lidar.
Primeiro foi garçom. Antes mesmo de ser gente foi garçom, decidiu que era gente por porque era algo, era garçom... Como garçom entendeu a lógica do poder que sua classe tinha. A classe dos garçons tem um poder imenso, isso Vitório descobriu. Servia a toda Capim Branco, aquela gente despeitada desejosa de ser “grandes-bostas”, e quando ouvia impropério, grossura, maltratamento, ou mesmo quando ficava cansado do tédio da vida em quotidiano, começava a dar provas de seu poder, desferindo pequenos golpes de seu poder nos humildes mortais. Enfiava o dedo no cu e mexia com o mesmo dedo o suco escumado, aproveitava da escuma e lá camuflava altas cusparadas. E misturava catarro no molho madeira, cera de ouvido e pus de espinha na manteiga derretida, deitava na feijoada a casca das feridas... Três semanas e não deu mais, seu poder de garçom também o saturou, como saturou, de um dia para outro, o óleo da pelota, e optou por vagar por aí. E foi vagando que chegou onde estava quando chegou Fernanda como visita.
Morava com Pirole, seu amigo, numa tapera grande. Pirole chegava do trabalho e Vitório, do seu lugar, esperava ansioso para ver seu amigo destilar simpatia. E pela manhã inteira Pirole tratou bem Fernanda que recebeu a hospitalidade orgulhosa como sempre, achando que nada vinha de graça. Por isso logo deu pra Pirole na cozinha, enquanto da sala Vitório repassava suas paixões antigas, falava só, por horas prescindia de interlocutor:
-  Saio de um relacionamento pro outro, gatta, sou assim desde menino... (pausa longa, enquanto bebe campari velho que tava na geladeira) Não vou ouvir Bethania hoje, viu, me faz lembrar do Alex e o Alex não merece que se lembre dele, bicha louca! Ele e eu tinha (desconcordância deliberada) sangue no olho, quando a gente brigava a gente quebrava o apartamento dele inteiro. Com Elvis que eu não me encrespava , fazia eu jeito de piti e ele me jogava porta afora. Ele tinha um cuidaaado com as coisas dele, um asseio! mesmo assim deu pra quebrar uns bibolôs vei-feio que a mãe dele deu pra enfeitar a casinha dele, o espacinho dele... Limpinho mas tinha tara em comer menino drogado... Quem não suja a pele suja a alma! Sua alma sua palma, to esperando o filho dele crescer mais um pouco pra eu poder comer...
Sairam, por fim, Vitório, Fernanda e Piroli... Doidinho esse Piroli, muito controlado, mas do tipo que no meio da loucura sobrevive a todos os loucos. Tem um saco mais fundo, do tipo que nada é tão agudo que atravesse sua grossa casca... Foram parar num monumento pequeno de longe grande de perto, e alto de subir nele por uma escada íngrime de concreto. Lá em cima tinha um lugar pequenino de se estar, algo como uma varandinha cercada de guarda-corpo, em que jazia sob um semi-pilar a tocha de um fogo que nunca apaga, faz pra mais de cinquenta anos e tá lá a mesma chama, em honra aos audazes bandeirolas, sertanejos e putas de dois tostões...
Enquanto os outros dois ficaram embaixo, na lascívia, Vitório subiu lá no alto, galgando os degraus com gana de quem vai ao encontro do ancião preceptor. Ficou pertinho do fogo, bêbado, vendo crepitar as labaredas com os olhos inundados. Naquela noite tomou só uma garrafa de vermute, ainda bebia as bebidas mesmas do tempo de menino, e bebia tudo, quanto mais se te oferecessem de graça. Naquela noite deu a língua à Fernanda e ela, com esmero de uma mãe sem filho, posicionou o papelzinho como a mãe que procura na parede o ponto mais justo para o retrato do filho que já não tem. Olhando para o fogo, Vitório viu no fogo o que viu quando viu o fogo pela primeira vez. Tomado de êxtase afastou o corpo até o guarda-corpo, dispensou o corpo ao ar e deixou o corpo cair, queda livre... doze metros depois e seu corpo no chão...
Caminhou depois, por um túnel sem luz no fim, mas andou tanto com medo do escuro que chegou no purgatório. Lá uma moça alta e poliglota o recebeu com respeito, mandou entrar na fila e esperar um bocado. Vitório acedeu acendendo um cigarro, mas foi advertido e teve de apagar certo de que o purgatório era uma instituição de sequestro.
- Onde posso ser o que eu sou? é no inferno? então toca pra lá então!
Depois descobriu que só havia purgatório, que nenhuma alma precisava de castigo eterno, nem merecia descanso perene, ficavam ali purgando, dando explicação e esperando Godot. A sala de espera do purgatório era o foyer de um grande teatro. Enquanto Vitório esperava acontecia um vèrnisságe, serviam coisas crocantes e bom vinho e toda a gente, com cachecóis no pescoço, falava de arte. Vitório foi depois reclamar, disse que aquilo feria o veto ao castigo eterno. Para não contrariar a maioria, nem tentar refutar observação tão lógica, o guarda fez Vitório entrar. Lá não encontrou um auditório, mas uma sala de depoimento de quatro metros quadrados, quatro milhões e quatrocentos e quarenta e quatro mil quatrocentos e quarenta e quatro metros quadrados menor que o foyer. Lá dentro dividia o espaço mínimo um velho que escrevia na máquina na velocidade da fala e um jovem que tinha respondida toda pergunta que perguntasse.
Vitório prático disse ao velho que anotasse e ao jovem que não perguntasse, que diria o que na teia desse e que com certeza toda dúvida sem pergunta seria esclarecida:
- Eu amei demais. Pergunta faço eu: porque amei tanto e tão a cabo e tão a fundo? Não respondam. Tudo isso me trouxe aqui, uma vontade decadente, um desejo sem eco e uma vontade boba de errar os caminhos. Quando era menino amei baixo, gostava de uma pequena esquisita que comia terra com a boca desenhada de batom, amei-a tanto que passava as quatro horas na escola sugando a madeira do lápis até que acabava o grafite. Por ela tomei uma garrafa de biotônico, depois enveredei nos vidros de perfume, rasguei a roupa na rua no meio de um desvario, durmi na sarjeta e deixei a escola, fiz uma mala pequena e fui ver outros lugares. Aí me apaixonei por um cara aí, com idade pra ser meu pai. Ele me tratou como um deus trata um mortal, como um mancebo trata outro mais mancebo, assim se regozijando por ter o destino de um ser sob a égide de seu poder. Mandava eu fazer as posições mais esquisitas, me obrigava a deitar sobre bifes mal passados escorrendo sangue, chupar caco de vidro e me deitar com as criações. Me cansei não por sofrimento, pra mim não há sofrimento que chegue, o duro era aturar o tédio... a excentricidade do cara também me cansou. Aí fui ter com uma puta velha, que conheci na rua, porque depois é sempre a rua. Ela eu não amei, mas o cheiro azedo da xota dela lembrava a minha mãe. Me lembro que ficava por horas com cabeça entre as pernas dela, recordando, pela força que o olfato tem em matéria de memória, o dia que a minha mãe foi embora deixando meu pai bêbado por dias e por dias o cheiro azedo da sua xota no ar. Um dia a puta velha saiu pra comprar pão e não voltou, me desesperei uma semana depois quando o cheiro azedo da xota dela já não podia ser sentido em nenhum canto da casa. Um tempo e vieram os sobrinhos que eu não sabia que ela tinha e demoliram a casa comigo dentro, eu saí do terreno baldio quando o novo dono apareceu e começou a erguer paredes que foram me enclausurando. Quando começaram a moldar a janela, fugi por ela pra poder ganhar o mundo travez. Depois foi o Elvis, depois o Alex... Só então Maricélia e Victor Hugo, Maricélia era boazinha, tão boazinha que eu tinha vontade de bater nela, ela me mostrou o quanto gostava de apanhar e eu me apaixonei. Mas o Victor já estava na minha vida, fiquei comendo os dois, apanhando dos dois, os dois tendo de mim tudo que queriam ter. Mas se conheceram um dia e, como na brincadeira da gata parida, fui espirrado pra fora de todo amor-bagunça do mundo... Eu amei demais, amei a viúva de um sado-masoquista e até sua perversão me cansou, me cansei do gosto do salto da botina dela na minha boca. Amei demais e me cansei até da garçonete, que vestia avental floral e me fez engordar com a sustança da sua comida remosa. Fiz por aí dois amigos, são os dois que estavam comigo. Faz meia hora que caí e ela tá lá com a pica dele na boca, os dois sem se darem conta do meu corpo estirado. E amei mais e mais além, me cansei da vida, mas jamais do sentimento, deixei as coisas práticas da vida pra lidar com o sentimento. Sinto tanto que deixei o mundo. Sinto tanto e receio deixar vocês. Posso ir?
Saiu e contemplou o purgatório inteiro com suas ruas sem saídas, seus horizontes entrecortados de almas vadias, que caminhavam vindo por toda parte. O purgatório inteiro ilhado de almas vadias! e não parava de chegar mais. Era tanta gente contando seus abortos, seus cancros moles e estelionatos, que Vitório decidiu fazer o caminho contrário, foi se esgueirando entre as pessoas, tentando voltar pra casa ou pelo menos encontrar o caminho pro inferno. Não era permitido voltar, mas Vitório tinha carta-branca, e tanto caminhou que logo encontrou a viela que, quebrando a terceira à esquerda, dava acesso pro seu corpo. Chegou, enfim, no seio de si, acordou, sacudiu a roupa, saiu.(parágrafo)
Ainda hoje vai vagabundo por aí, procurando sentido enquanto procura sentir saudade. 


[1] Ruan J. heterônimo de Sávio J., que é heterônimo de Caio Higino, o caio no mundo, pseudônimo daquele que prefere não se identificar, não por medo, mas para que o uso de pseudônimo pelos heterônimos não perca seu sentido. Ruan J. tem quase trinta, mas parece ter mais trinta. Gosta de poltrona modernista, para ver, nunca para sentar, e gosta de televisão... Perde horas vendo catálogos e almanaque de décadas idas. Certo dia ficou, por tempo indeterminado, vendo uma foto de Grande Otelo em que ele fugia de um teatro de revista em chamas com uma vedete nos braços. Adora Baby Consuelo, telenovela, sertanejo raiz e filme de tragédia urbana baseado em fatos reais. Porém seu filme favorito é Casablanca, por catarse simplesmente. É que Ruan J. sofre de amor indiferente e de quando em vez tira fotografia, mas nunca teve câmera própria. Sempre ri assistindo Cidadão Kane, chora vendo O Astro e rói as unhas vendo o futebol. Veio de minas é atleticano roxo, anda de bicicleta, não dirige por déficit de atenção... Ama sem recíproca uma moça de Minas mesmo, uma moça de sotaque forte e as palavras muito bem pronunciadas, que estuda literatura dramática e gosta de cantora sapatão da nova MPB.      
     



Rogério Luiz é mineiro, ator. Escreve. Fala textos sem parar, é verborrágico. Meio louco, meio moribundo. Desperta medos nas criancinhas de Unaí. É o amorzão "paciente" da Karine Ribeiro.



terça-feira, 5 de junho de 2012

Pensamentos Distraídos Sobre o Teatro


Dividindo no Liquidificador

Os Novíssimos Jovens Artistas do Teatro de Amanhã – o novo de agora já é velho aqui

Querido Diário,

Outro dia, ao achar um livro antigo na prateleira, distraídos venceremos, me peguei mais uma vez com a impressão de que o Paulo Leminsky e eu tínhamos uma ligação atemporal. Sim, ele havia escrito aquelas lindas palavras em um tempo distante, e essa doação de sabedoria, com muito empenho e sorte, atravessou os dias a fim de me encontrar, e encontrou! Eis o poder do encontro. Era como se sua história agora fosse minha, uma apropriação incontrolável.

Pergunta: Como achei este livro mesmo?
Resposta: Sou um ser em busca de distração. E poderia pensar que isso é horrível, mas não. Assim é o mundo.

                Isso acabou me fazendo pensar mais uma vez no bom é velho teatro. Que distração formidável! Pode ser a distração de uma vida inteira para alguns. Mas será que a palavra distração pode soar negativa para a classe artística teatraI? Isso é muito cruel. Ora, o teatro não se faz mesmo no encontro de imaginações se distraindo em criatividades e estórias. E esse assunto é muito sério. Pessoalmente penso que repreender a  distração castra a criatividade (artista) e ao mesmo tempo desestimula a autonomia (espectador) de dedicar seu tempo a uma atividade sem fins lucrativo. Como diria um amigo Palhaço ``  e o engraçado é que é sério``.
Pensar distraidamente sobre a teatro me leva para o futuro. Sim, quando estudo teatro no passado só faço análises. É bom, mais cansa.  Distraída penso sempre no que vai acontecer. No depois. È o cientificismo. O mistério da vida é o mesmo do teatro: O que vai acontecer no próximo ato ?! E quanto maior o mistério ou melhor a questão.
 Vejamos, uma pergunta realmente difícil para o teatro...
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...
Sim! Achei como será o teatro de amanhã?  Aquele teatro  lá no futuro, que os netos dos nossos bisnetos  possivelmente verão. Se é difícil imaginar como será o mundo depois do dito``2012`` ou Brasília depois da copa, vai lá dizer o teatro do futuro. Mas, uma coisa é certa, se o mundo não passar por uma guerra atômica ou for atingido por um meteoro à la melancolia , o teatro vai continuar por ai, e assim sendo, continuará mudando. E como será o teatro no futuro? E os Artistas de teatro do futuro?

Outra coisa também é certa, são muitas perguntas para uma distração descompromissada. Agora vou procurar algo cult, científico, compromissado para me distrair.



                                                          Zizi Antunes











segunda-feira, 4 de junho de 2012

Os copos de vidro, a noite e nós


Rodam os ponteiros, passam os dias, caem os cabelos. Os dedos tamborilam na quina da mesa de plástico do bar de sempre enquanto a bebida não chega. Ponta do pé no chão, noite fria, pernas inquietas. O casaco vermelho de listras azuis fede – embora esquente – e é praticamente a minha solidão materializada. Não tenho mais quem cheire minhas roupas usadas e diga que estão sujas, mas podem ser vestidas novamente.

O cigarro cada vez mais caro, o catarro cada vez mais grosso. O corpo, mais velho. O copo, mais vazio. Está tarde. Estou numa mesa de esquina, sentada do lado de fora. Conhecidos passam por mim e fingem não me reconhecer. Estranhos sorriem encabulados quando nossos olhares se cruzam. Coço o nariz involuntariamente quando isso acontece. Eu nunca sei o que fazer com as mãos quando me sinto vulnerável, você sabe.

A cabeça gira, e a cachaça já virou drink. São nas mesas dos bares de sempre que as coisas acontecem. As confissões, as ideias pretensamente geniais de egocêntricos que querem mudar o mundo, os debates acalorados entre pessoas de opiniões divergentes. Somos uma repetição do passado: bêbados cheios de raiva, amor, vergonha e impulsos contidos que vez ou outra explodem. Somos os mesmos de antes, mas agora temos acesso à internet. A mola propulsora das nossas relações, no entanto, continua sendo uma mesa, uma mesa qualquer com alguns copos em cima.

Vagarosamente, a lua desaparece. A névoa causada pelo tempo – ou pela cerveja e doses de cachaça e vodka? – não me permite identificar em que fase ela estava, só sei que cheia não era. Reflexos laranja tingem o céu desbotado e penso em você, e nas noites em que amanhecemos juntos, vendo o céu e os nossos rostos mudarem de cor.  

Penso no amor, esse amor que nós – os de agora e os de antes – inventamos. Nós, amor, amor e nós, laços sempre tão frouxos compostos de fios finos e frágeis que precisam das nossas narrativas lógicas para que a falta de sentido não nos deixe enlouquecer. Porém, continuamos loucos. Continuamos podres, imundos, chafurdamos na lama da existência buscando nos outros o sentido das nossas vidas.

Levanto e me sinto tonta. Pago a conta do bar, que já está fechando. Garçons e garçonetes sonolentos, que vão pegar dois ônibus para chegar em casa, tentam expulsar gentilmente aqueles que insistem por mais uma bebida. Dentro da minha bolsa, entre lenços de papel despedaçados por lágrimas escuras de maquiagem derretida e extratos de banco, encontro um número de telefone rabiscado em um maço de cigarro. A sua presença me faria muito bem agora. Mas eu não saberia o que dizer e nem onde colocar as mãos, você sabe. Então disco o número de uma pessoa qualquer.

E o meu casaco continua fedido.


Maíra Valério é brasiliense, contraditória, quase-jornalista e não sabe falar sobre ela mesma na terceira pessoa.

domingo, 3 de junho de 2012

BUDAPESTE MINAS e o Jardim das Malditas




Conhaque Presidente é horrível. Vinho Cortesano é uma merda. Mistura os dois e você vê Deus. E no dia seguinte o Diabo. Não é recomendável pra quem vai dirigir. Eu seguia de ressaca pela estrada a 140 km/h. Nenhuma alma por perto. Catalão estava no caminho e teimava em não chegar. O Diabo sentou ao meu lado com seu bafo de noite anterior e jogou na minha cara seu Traçado de paixão e dor. Eu quase me arrependi.

O cigarro e umas goladas de whisky barato impediram o desmaio iminente. Eu estava parado e cidades passavam velozes ao meu lado. A estrada fugia por trás de mim. Não suportei e precisei encostar o carro. Após infestar o banheiro do posto de gasolina pedi uma coca e batizei com o whiskinho e chamei a magrela da garçonete de gostosa e enfiei o pé na estrada novamente.

Travei diálogos com a Morte. A pressão alta e a obesidade e as dores de cabeça eram nossos assuntos prediletos. Mas depois de Araguari expulsei a vadia do carro enquanto Lou Reed & Metallica tocava alto no som e eu gritava pra ela: “continuamos depois, nojenta”.

Cheguei em Uberlândia, a cidade com menos putas per capita de todo oeste do sudeste brasileiro. Deixei as malas no hotel e me carregaram para um coquetel de inauguração de um prédio novo para otários velhos trabalharem suas papeladas até explodirem os coraçõezinhos por debaixo da gravata, suando e desejando as secretárias e as estagiárias e as copeiras e as vigilantes e se contentando com a punheta escondida no banheiro feminino, porque vai ter uma cidade sem puta assim na puta que o pariu.

Uberlândia cresceu como o Brasil e ficou cheia da grana, dos prédios e das avenidas, empreendimentos imponentes, velhotas bem vestidas e moças antenadas, homens tomando vinho italiano e conversando sobre Nova Iorque e disfarçando se acharem chiques, como se ir nos EUA fosse tão normal quanto passar o feriado em Caldas Novas. Mas enquanto a cidade cresceu e os aviões decolaram para todas as direções, as pessoas continuaram as mesmas – apenas com mais pose e mais carimbos nos passaportes.

Um sujeito engravatado mordisca canapés de caviar no coquetel. Beberica seu 12 anos. Diz que ir a Buenos Aires nem é mais viagem internacional e coça sua cabeça de camarão esperando o motorista buscar o Citroën C4 Pallas e não esconde no fundo do olhar a tensão de quem é apenas o que tem, porque suas coisas adquiridas e a adquirir são as únicas que o distraem da merda de vida que leva, convivendo com pessoas que despreza com o que guarda de pior no centro do meio do fundo do ânus.

Eu sou assessor de imprensa, o que implica necessariamente em ser um idiota, alguém desprezível que não tem a menor utilidade, um elo desnecessário entre dois mundos que não interessam a ninguém - o das gravatas e o da caneta e do caderninho. Cumpro meu papel com exuberância, sempre bêbado e disfarçando e sorrindo e apertando as mãos de todos, mantendo firme o olhar na fuça dos otários e no decote de suas mulheres generosas. Não titubeio, não paro pra pensar, bebo tudo que posso no coquetel, finjo me interessar por todos aqueles assuntos e a hierarquia dos idiotas e quando não me suporto mais por me deixar ser essa putinha barata, procuro uma putinha barata pra me refestelar com os iguais.

Após alguns whiskinhos no balcão do bar do hotel parti para minha caçada madrugada adentro. Em Uberlândia não existem tantas casas noturnas de baixo padrão quanto as ruas de seu centro movimentado prometem. Percorro toda a cidade por uma simples putaria e não encontro nada além do vazio frio das ruas desabitadas. Tudo morto, nenhum mendigo a mendigar, nenhum cachorro vadio zanzando por ali. Resolvo voltar pro hotel sem esperança e de repente avisto uma luzinha distante e um vulto feminino e suas pernas desnudas me convidando. Percorro a distância com o coraçãozinho apressado. Encontrei meu lugar, encontrei minhas irmãs.

Entro calado, escolho “Mon Amour, Meu Bem, Ma Femme” na jukebox e parto pra cima da magrinha. Eram quatro presentes, eu, a magrinha, uma velha, uma gorda e um boiadeiro bêbado e rouco. Subo pro quartinho sujo, faço minha sessão de descarrego em silêncio e exausto retorno pro bar. Boto outra do rei na jukebox e puxo assunto com a magrinha:


- Pois é, meu bem, aqui nesse mundinho fechado a gente é incrível! Não estamos sós.

- Você não passa de mais um babaca. Na verdade todo mundo é solitário o tempo todo. Na fila, sentado no ônibus, no vaso sanitário. Todo mundo conhece aquele sentimento otário que nem cachaça, nem buceta, nem salário disfarça: um dia essa porra toda acaba, esteja você em Uberlândia, Araguari ou Uberaba. Mas nem todo triângulo é mineiro e você pode até ouvir o Dark Side Of The Moon inteiro e recusar as voltas do ponteiro e ter a carteira cheia de dinheiro, mas nada nem ninguém no mundo te explica, porque um dia a morte vem e te fode com sua imensa pica.

- Que é isso, novinha? Que é isso? O freezer tá cheio de Cristal gelada, ainda tem uma garrafa de Dreher, tenho 10 conto pra gente ouvir Reginaldo Rossi na jukebox, ou Renato Russo, ou Janis Joplin, ou Nirvana se você preferir. Ainda resta um maço de Derby vermelho. Poxa, daqui a pouco inclusive eu tô aceso outra vez, a piroquinha uivando pra lua... 

- Nem vem que é mais cem!

- Você sabe que eu não tenho. Eu quero é que você venha como você é, como você foi, como uma amiga, como uma velha inimiga, tome seu tempo, se apresse, vem como uma memória envelhecida, vem que eu te juro que não estou armado, eu te juro.

- Sabe, Teotônio, você me surpreendeu. Entrou aqui neném. Agora fica dando gritinho. Volta pra sua. Você fede a suvaco de adolescente. Sua carne tá podre e você faz bem ao livrar o mundo da miséria dos seus bagos. Eu não tenho nada nesse mundo, mas não tô aqui prensando um baseado como se fosse a solução. Eu não perco tempo. Eu já nasci atrasada. Eu vim de Budapeste no inverno e me instalei em Uberlândia. Eu vim de trem e nunca vou voltar. Que ninguém me perdoe, que me atirem todas as pedras. Eu sei o que sou e me basto. O que você é, seu otário?

Budapeste! Deve ser é de Cristalina. Tava brabinha, não deu de graça e voltei pro hotel sem repeteco. Pensei em tudo que a magrinha falou. Eu sou esse proto-punk-beatnik-gonzo-romântico, mas deveria mesmo era comprar um suéter no Parkshopping assim que voltar pra Brasília e assumir logo meu lado boçal, afinal, o que me resta se eu não morri aos 21 e ainda não escrevi meu primeiro romance? O boiadeiro bêbado e rouco falou uma coisa no ouvidinho da magrinha e da velha e da gorda que eu pesquei e trago agora como uma importante lição: "às vezes se fala pra dentro, não se olha nos olhos, se passa uns dias pra baixo pensando nas possibilidades abortadas, nos talentos distraídos. Relembra-se dos passos desengonçados nos percursos sociais, da entrega limitada às ambições, apesar do sentimento profundo que se nutre por tudo, pelo sangue, pelos amigos, pelo país, pelo amor. Pois faça disso sentimento e bote sangue no olho e tente pelo menos acreditar que algo pode ser melhor nessa vida, mas eu sei que ela não é série de TV americana, não tem comerciais, a vida não é pauta pros jornais e a alegria não é sempre que vem nos visitar, na verdade é a tristeza quem mora com a gente, e nem adianta reclamar porque a casa é dela. Você gosta de ver os outros fazerem o que você queria fazer, mas estão todos disfarçando a sensação universal de que falta alguma coisa. E tudo bem a vida é pra sonhar, só não vá entrar em desespero quando acordar no seu quarto, no presente, de pijama, sem glamour. Mas, enfim, o que você pode fazer se não pelo menos celebrar o simples fato de estar vivo, de estar aqui na América do Sul, no Brasil, apesar de tudo?" 



Velho escroto. Não comeu ninguém porque caiu de bêbado, mas deu uma de poeta maldito. Eu do meu lado sigo a longa avenida sem remorso, colhendo minhas flores no jardim e algumas lembranças, ainda que murchas, desviando meu caminho pra não perder o rumo.




Ricardo de Alcântara é escritor de porta de banheiro e contracapa de caderno. Vadio. Inútil. Imbecil. Na superfície um cara simpático que se mantém na média e por ali segue satisfeito tomando sua cervejinha e imaginando todas as mulheres que avista nuas, mas com todo respeito, e nem tanto assim.




Postagem Convidada

A partir do dia 03 de junho até o dia 16 de junho vamos convidar pessoas para escrever em nosso blog!

A lógica será a mesma das nossas postagens diárias: Postagens relacionadas aos temas que estamos trabalhando no nosso novo espetáculo ULTRA-ROMÂNTICO.

Noite
Bares
Punk
Romantismos
Platonismo
Drogas
Rock
Os subtemas do Noite na Taverna
Brasília
Álvares de Azevedo
e por aí vai... dependendo da imaginação e capacidade de link do convidado.


A ordem é a seguinte:


03 de junho - Convidado do Fernando
04 de junho - Convidado do Glauber
05 de junho - Convidado do Kael
06 de junho - Convidado da Karine
07 de junho - Convidado da Fernanda
08 de junho - Convidado do Tiago
09 de junho - Convidado da Iza
10 de junho - Convidado do Fernando
11 de junho - Convidado do Glauber
12 de junho - Convidado do Kael
13 de junho - Convidado da Karine
14 de junho - Convidado da Fernanda
15 de junho - Convidado do Tiago
16 de junho - Convidado da Iza




Então aguardem, novas visões sobre os temas vêem por ai.
Todas as postagens virão com o seguinte selo (Álvares de Azevedo) para identificá-las: