quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Onde estamos? Quem são elxs?


         Apenas as cartas são capazes de apontar as verdadeiras coordenadas no mapa de uma cidade sonhada. Podemos escolher nos guiar por elas, mas também possuímos lanternas. A dúvida talvez esteja em seguir o caminho mais seguro...
Vemos daqui que o mapa da cidade é desenhado em forma de labirintos.
Percebemos que podemos entrar!
É um jogo... ou teatro?
Decidimos nos inserir nesse labirinto e percebemos que os caminhos se bifurcam. Pensamos que só vamos encontrar a cidade no centro ou no final desse caminho, mas talvez não se trate de almejar o fim. Está acontecendo agora, nessa busca. É aqui mesmo, perdidos, que nos encontramos. Encontramos!
É uma cidade arquitetada por muros invisíveis, e as ruas nunca nos permitem ver o que há no fim. Nunca sabemos o que esperar ao virar de cada esquina, ao menos que perguntemos ao Hacker e ao Stalker (2082).
Após acessar todas as contas possíveis das redes sociais, Instagram, Facebook, Google+ e Sarahah, Hacker e Stalker (2082) nos contam que a sociedade que habita o labirinto Kissibifurca é formada por Bruxamãs robôs ou Chullachaquis artificiais. Eles comparam esses seres ao Homo sapiens cliché que já tanto conhecemos, nos dizendo que há apenas uma diferença: a maneira pela qual se reproduzem.
Hacker e Stalker (2082:152) afirmam que “ ... se trata de seres monoicos, ou seja, que possuem os dois órgãos sexuais no mesmo corpo, e, consequentemente, se autofecundam. A produção de desejo desses indivíduos só acontece a partir da formação e da manutenção de determinados símbolos: a tecnologia se desenvolve a partir do pé esquerdo e a magia é emanada do braço mecânico. Quando fabricam desejo, essas duas partes se encontram dando luz a Tecnomagia, um líquido de jenipapo diferenciado que, caso a cor for verde, produz  Chullachaquis artificiais, e caso a cor for púrpura, produz  Bruxamãs robôs. E é assim que se inicia o ciclo da vida divina dessa população.”
Hacker de repente dá um pulo e, muito feliz, nos conta que conseguiu entrar no perfil privado de uma Bruxamã, em que ela comenta como consegue atingir o orgasmo em apenas 10 segundos apenas utilizando o teclado do computador.
 Há... A gente riu muito disso...
 E descobrimos mais coisas.
 Nessa sociedade todos os habitantes utilizam certos equipamentos expressivos, como por exemplo, os espelhos amarrados na cara, que servem para se sentirem mais bonitos e inteligentes. Alguns teóricos de Kissibifurca dizem que esses equipamentos atuam como uma espécie de apreciação narcísica de acordo com os padrões alheios de aprovação por meio de likes.
Descobrimos também que, desde o nascimento, a maioria delxs são ensinadxs (através de uma espécie de telepatia discursiva) que devem se portar sempre seguindo as coordenadas de Natasha. Por serem navegadorxs entre mundos saturados de inventividades televisivas, elxs já conheceram todas as capacidades e incapacidades da engenhosidade humana, tanto do domínio das plantas, quanto do domínio dos parafusos.
Em um dos caminhos bifurcados de Kissibifurca, decidimos perguntar diretamente para o próprio Chullachaqui alguma coisa sobre eles mesmos, sobre o que sentem em relação à vida, ao cotidiano, a qualquer coisa, e ele diz:
“Mesmo que pareça que viemos de um mundo distante ou de uma realidade paralela em que o desenvolvimento ético se dá através do alto investimento em ciência e tecnologia, acredito que estamos no nível mais rudimentar da hierarquia de evolução imaginada pelo darwinismo social, pois somos incapazes de diferenciar o olho, da lente. Mas assim né, aqui em Kissibifurca, a profissionalização de feitiços cibernéticos é altamente valorizada... A metodologia do feitiço é construída e pensada através do domínio da codificação de instruções que determinam sequências de ações que podem criar softwares ágeis que permitem que possamos escolher entre ser uma esponja do mar ou um refrigerador quando morremos.”
Decidi, então, perguntar qual seria a escolha dele, e ele disse:
“Bom... o refrigerador pode não funcionar né, e a esponja do mar serve de alimento para alguns moluscos do mar... Acho ambos muito ruins, não consegui decidir ainda...”.


Referência Bibliográfica:
HACKER e STALKER. 2082. Uma investigação cibernética pela cartografia virtual de Kissibifurca. Editora Tecnomagia.

domingo, 25 de junho de 2017

Dramaturgia do Pop-Up - TecnoMagia







“O jardim de caminhos que se bifurcam” é um dos contos de Jorge Luis Borges que liberta a linearidade de algumas estruturas narrativas estabelecidas, a história do conto é apresentada cheia de alusões e associações dentro dela, como se fosse um labirinto narrativo ao nível do tempo e do espaço. Uma narrativa que abre outra, que abre outra e assim por diante, como uma estrutura de bonecas russas que se englobam uma dentro da outra. Este conto foi uma primeira inspiração para estruturar a dramaturgia do TecnoMagia. Por mais que, a cada dia de apresentação, aconteçam novas cenas e configurações improvisadas, a estrutura literária deste conto do Borges nos inspira a abrir janelas infinitas. Histórias cruzadas. Janelas, que abrem janelas, que abrem janelas, como quem navega num browser da internet (chrome, mozilla, safari etc). Um labirinto de narrativas que se concretiza em cena, nos objetos, nos efeitos de luz e som, nas relações entre público e perfomers e no próprio espaço da galeria. Quando pensamos a dramaturgia deste espetáculo, pensamos espaço e tempo, pensamos com o corpo em ação na cena. Textos não são apenas letras num papel.


 “Deixo aos vários futuros (não a todos) o meu jardim de caminhos que se bifurcam.(…) infinitas séries de tempos, uma rede cresecnte e vertiginosa de tempos divergentes, convergentes e paralelos. Essa trama de tempos que se aproximam, se bifurcam, se cortam ou que se ignoram, abrange todas as possibilidades.” Este jardim do conto de Borges trata do tempo como espaço, dos percursos escolhidos para seguir, das possibilidades de futuros e das aberturas de outras dimensões/realidades paralelas, atributos que hoje conhecemos tão bem em narrativas de séries como Lost ou Black Mirror. Histórias que se cruzam, outras que se encerram de repente, outra que se corta e cola mais adiante, tudo muito conectado com nossos cotidianos de aplicativos e redes sociais.
Porque Pop-up? Imagine a utilização de um celular hoje em dia: abre-se a janela do app do Instagram, histórias e imagens pulam na sua frente. Fecha-se o instagram, abre-se a janela do facebook, histórias, textos, imagens, vídeos, tudo passando rápidamente diante de seus olhos. Abre-se o wattsapp, áudios com narrativas mais íntimas e cotidianas passam por você. Todo este trajeto dura por volta de dois minutos. Muitas histórias e assuntos, caminhos e narrativas que se bifurcam a cada segundo, a cada nova janela de informação. Janelas, janelas, janelas, janelas, janelas... Pop-ups. Um infinito de possibilidades de aberturas. Uma dramaturgia aberta que se transforma a todo momento, a cada nova mudança da configuração do presente.


TecnoMagia é um espetáculo que acontece no improviso, o texto e as imagens são construídos pelos atores (ou atletas afetivos) no momento da cena, diante do público. Um rito que é conduzido por três performers e que necessita do público da sessão para tirar na sorte as cartas do dia. O jogo acontece da seguinte forma: Temos doze cartas de figuras mitológicas pesquisadas para o universo deste trabalho, O Outro, O Monstro, Ciborgue, Fake, Troll, Xamã, A Inteligência Artificial, Stalker, Vidente, Hacker, Chullachaki e A TecnoMagia, destes arcanos serão tirados três por dia apenas, o que influenciará nas temáticas e nas janelas de imagens que se abrirão. Apesar de texto e imagens postas em cena estarem improvisadas, nós temos uma estrutura de jogo que vai se repetindo igualmente todo dia, daí a explicação de a dramaturgia se inspirar na estrutura do conto de Borges e nos pop-ups de computador. Os temas e narrativas são apresentados ao público e entram em portais (ou pop-ups) que voltam ou não aos temas do início, depende por que caminhos a improvisação dos atores/performers (atletas afetivos) e a presença do público da sessão levará. A dramaturgia dos portais que se bifurcam. 


O Grupo Liquidificador propõe com este trabalho uma experiência sensorial para o público, uma vivência relacional, recolocando na cena contemporânea o que o teatro tem de mais potente: O encanto da presença de um ser humano de frente para outro ser humano. O importante é o encontro e não o “Artist is present” midiático. Mais do que contemplação, a pretensão é provocar no público uma relação. Os temas vão percorrendo corredores e pátios, por mundos distópicos, realidades aumentadas ou vivências espirituais, as narrativas se fragmentam e recompõem-se a todo tempo, como um diamante refratário de luz. Desde encontros com seu outro no espelho à luzes em finais de túneis que metaforizam o clichê da morte. Aguardamos ansiosos o público pra completar este mágico processo de dramaturgia relacional.






Obs: Toda a concepção de dramaturgia do espetáculo está sendo feita por Fernanda Alpino, Fernando Carvalho e João Quinto.


Imagem 1: Labirinto de Chartres
Imagem 2: Labirinto de Saint-Quentin
Imagem 3: Pop-ups diversos 
Imagem 4, 5 e 6: Garden Parterre - DeZallier d'Argenville

quarta-feira, 19 de abril de 2017

O que é Chullachaqui?


O chullachaqui é um ser da floresta que toma a forma corporal de uma pessoa próxima de quem o vê. O chullachaqui é um oco da pessoa. Dizem que cada um de nós tem um correspondente igual a nós caminhando pelo mundo, só que oco. 
Ao encontrar com um chullachaqui, só se sabe pelos pés que este não é realmente a pessoa que conhecemos. Este ser fantástico produz a imagem e semelhança de pessoas queridas, mas um dos seus pés é uma pata de bicho, de galo, de tartaruga, de bode, de javali, de qualquer criatura animal não-humana.

Os chullachaquis podem também estar nas fotos, nos avatares digitais, nos perfis de redes sociais e em qualquer lugar onde o oco de humanos se proliferem. Caso a pessoa seja enganada pelo chullachaqui ela se perderá pra sempre na floresta ou nos imensos labirintos de Bits que as redes infinitas nos proporcionam. É preciso ter cuidado!

Então lembre-se da próxima vez que for interagir em ambientes digitais com muitos ocos por bit quadrado, peça sempre uma foto dos pés da pessoa do outro lado da tela. O chullachaqui tem apenas um pé humano.

Carta do chullachaqui na TecnoMagia

sexta-feira, 24 de março de 2017

TecnoMagia - Fotos: Thalita Perfeito



 TecnoMagia

FOTOS DOS ENSAIOS GERAIS 

Fotos: Thalita Perfeito









































CARTAS da TecnoMagia



Em TecnoMagia o Liquidificador dá um passo diferente na ivestigação de formas relacionais com o público. Desta vez o espectador participante é recebido em uma arena de jogo composta apenas por objetos dispostos pelo espaço. Cada sessão de TecnoMagia é única porque sua dramaturgia é construída durante a sessão a partir de cartas tiradas na sorte pelo público. São doze cartas arquetípicas que norteiam o acontecimento, vão ser tiradas apenas três cartas por dia que darão o tom do acontecimento tecnomágico. Dentre as doze figuras do jogo estão: O Outro, O Monstro, Ciborgue, Fake, Troll, Xamã, A Inteligência Artificial, Stalker, Vidente, Hacker, Chullachaki e A TecnoMagia.
Mundos distópicos? Futuros? Ou estamos num labiríntico jardim? Um jardim de objetos repleto de sendas que se bifurcam cada vez que se passa por uma. Uma janela abre uma nova aba que abre um poup-up, que abre uma nova janela e assim também é composta a dramaturgia do espetáculo, um labirinto repleto de portas e possibilidades.
No jogo proposto pelos intérpretes Fernanda Alpino, Fernando Carvalho e João Quinto cada pergunta é respondida com outras duas perguntas, e essas duas perguntas respondidas com outras duas perguntas cada, um constante bifurcar de questões, imagens e situações. 
Toda essa multiplicidade de sentidos gera uma atmosfera onírica compartilhada com o publico que questiona a todo momento a dicotomia entre tecnologia e magia. Não seria a m
agia uma forma imaterial de alterar a realidade material? E o mesmo não pode ser dito da tecnologia com a qual vivemos cercados hoje em dia? Dentro do rito-cênico proposto pelo Grupo Liquidificador somos convidados a um mergulho no presente que ao mesmo tempo teme e ambiciona as possibilidades de futuro e onde nossas identidades são questionadas a todo instante .