sexta-feira, 5 de julho de 2013

O Artista é Um Artista?


Alguns anos atrás presenciei uma cena curiosa e interessante. Fui assistir o espetáculo "Um Homem É Um Homem" da cia mineira Grupo Galpão e ao final da peça, depois das palmas calorosas da plateia, um dos atores tirou o chapéu que o personagem usava, olhou pro resto do grupo e insinuou com o olhar que iria passar o chapéu para arrecadar um dinheirinho com a plateia. A resposta de um outro ator do grupo (também apenas com um olhar) foi apenas um sorriso e um balançar de cabeça negando a proposição, pedindo para que o chapéu não fosse rodado.
Aquela apresentação estava vindo para Brasília por meio de um grande festival, além de o grupo contar naquele momento com um patrocínio exclusivo da Petrobrás.

Pra quem conhece a história do Grupo Galpão, sabe que a maior parte de seus espetáculos iniciais foram feitos para o teatro de rua e que a passagem do chapéu garantia sua subsistência, além de perdurar uma tradição mambembe do teatro feito para as ruas. Me chamou atenção essa cena, pelo fato de que mesmo com toda a estrutura de grupo construída ao longo dos anos, mesmo com todas as garantias de cachês e gastos de produção, aquele ator estava com o espirito pronto para voltar a passar o chapéu. Estava pronto para voltar a sobreviver de sua arte, de batalhar no corpo a corpo, independente de qualquer estrutura.

Minas Gerais possui diversas industrias e mineradoras que "se dispõem" a patrocinar projetos artísticos. Os artistas do Rio de Janeio possuem uma ótima organização empreendedora. Grupos e coletivos de São Paulo tem força política e organizacional para pressionar o estado pra construção de leis e políticas publicas. E tudo isso não torna mais fácil a possibilidade de sustento continuado com trabalho artístico.

Isto me faz pensar muito sobre Brasília. O que nos diferencia de outros estados? A juventude da cidade? A falta de empresas da iniciativa privada que se interesse por arte? A falta de uma organização política da classe para lutar por direitos mais dignos junto ao estado? Estes são realmente problemas para prosseguir produzindo ou obstáculos que nos fazem desistir?

Certa vez ouvi de um performer aposentado aqui da cidade que a maioria dos grupos e artistas de Brasília possuem um "prazo de validade" de cinco anos. Durante 5 anos produz ininterruptamente, agita a cidade e a própria alma e arrefece diante de uma serie de fatores. Diante da necessidade de sustento e a falta de alternativas viáveis. Diante da demanda altíssima de concursos públicos que a cidade proporciona, trazendo uma "vida melhor" e uma conformação critica. 

Temos outras possibilidades e caminhos para aumentar nosso "prazo de validade"? Será que é assim mesmo e assim deve ser? Quais outros meios a cidade ainda não encontrou? Estamos parecidos com aquele ditado sobre o México: "Pobre México, tão longe de deus, tão perto dos EUA". Estamos tão perto dos políticos, das matrizes empresariais, das estruturas governamentais e tão longe de conseguir condições mais dignas. Conheço pouquíssimas pessoas que trabalham com emendas parlamentares, por exemplo. Ou que pressionam o ministério da cultura, logo ali, do ladinho de nossas casas.

Este texto é apenas um desabafo pessoal de um integrante de um Grupo que neste momento procura caminhos para não ser sufocado pela maquina cotidiana. Caminhos diferenciados para não ficar refém a mercê de governos e partidos. O que podemos fazer para trilhar este caminho? Veremos...

Para o momento que passamos, cabe a frase do escritor da peça Um Homem é Um Homem, encenada pelo Galpão:

Inteligência não é não cometer erros, mas saber resolvê-los rapidamente.
Bertold Brecht


quinta-feira, 4 de julho de 2013

É tempo de ebulição...

De repente o mundo que nos cerca é outro, mas ainda continua o mesmo em suas formas geométricas de manipulação e manifestação. É uma faca de dois fios apontada para o nosso peito argênteo.
Foi uma semana. E não sabia que uma semana era tanto assim. Eu fico feliz por você que pensa, mais importante que ir para ruas dar um berro de desespero. Enquanto pensarmos, existiremos. Condição unidirecional. Me sinto gradativamente envolvida, à minha maneira!

No dia 17 de junho as redes sociais falavam muito alto e em tom conclamatório: Vamos para as ruas... E agora a música do Rappa que era referenciada à Copa, continua falando do gigante, mas de outra substância. Feita de sangue e de ideologia.

Neste dia, tive a sensação de tudo estar suspenso. Como quando você junta as mãos curvadas e enche d'água. Este momento foi sentimento propulsor. Uma atmosfera neblinando... fumaçando... era o silêncio do mundo. Barulho para poucos. Os barulhos concentrados em alguns. Por mais alto que o Chico cantasse no meu quarto, não consegui sonorizar. A noite caiu. Não sei como foi este quando em mim. Mas o sol se foi, e para muito longe.

No dia 18, todos os meus amigos homossexuais estavam protestando a "institucionalização da cura gay", todos tristes e eu também, pois duas pessoas que eu conheço morreram. Com a notícia da morte, passa a sensação de neblinar e vem a de tristeza. Melancolia. Nostalgia pelo que vivemos, não vivemos, e nunca mais poderemos viver. O tchau é eterno. Neste dia também alguns postaram depoimentos nas suas linhas do tempo. Descrevendo e opinando sobre o ocorrido na Esplanada no dia anterior. E tudo se misturava de uma forma tão estranha que ainda não foi diluído dentro das artérias entupidas de tabaco.

O dia estava marcado! Quinta-feira, dia 20, todos na Esplanada. E quando digo todos me refiro à uma expectativa de 50 mil pessoas para a Esplanada e 100 mil para a praça da Sé (SP).

E tudo foi tão impressionantemente rápido que me causou estranheza. Mas como alguns sabem, as vezes eu sou devagar. Não sofri influência da mídia, isso me tornou mais lenta ainda. Não sofri porque minha televisão, vítima de uma mudança repentina, está sobre o sofá, esperando a morte chegar. Antes ela do que eu!

Engraçadamente, eu mesma questiono esta isenção. Estou me comunicando diariamente com pessoas que pregam seus olhinhos nos olhos dos seus inimigos e falam, isso é mentira! A absorção é inevitável, pois como o mestre Fairclough afirmou, o discurso como uma praxis social, relida e não isenta da posição intertextual do sujeito. 'Discurso e mudança social' me fez entender tantas coisas que não são ditas por mim. Não quero me tornar essa pessoa que escuta algo e enfia o pé no cú da mentira, jogando pra longe o que afirmam ser verídico, mas guardo às rondas do meu coração. 


Dia 20, tínhamos que trabalhar na reunião, na exata hora marcada. No calor das emoções, o trabalho foi interrompido para a operação Esplanada. Fui terminantemente contra simplesmente por não ir a lugares cavernais políticos. Eu tenho motivos sólidos e volúveis.

Eu perdi o meu pai pra Revolução e, nela, não me perderei de mim. Aqui dentro tem ebulição, embora não pareça, verve... O momento me traz o descobrimento. O constante caminho de descobrir quem eu sou. Faço um suco crítico da minha arrogância e tempero com ironia genética. A genética me pariu. Eu sou revolucionária fantasiada de salto alto verde água. Eu sou o impossível exercício do silêncio interno.
Não me venha dizer agressivamente que eu não posso ser assim, assado, que isso te exalta, entristece. Porque essa postura totalitarista te iguala aos seus inimigos. Mas você é vítima do sistema. O sistema que lhe pariu...


Depois dessas linhas, o estômago começa a desembrulhar de você que eu amo. Eu entro no ônibus, passo pelo DECK, lembro dele e descarrego essas linhas nesse celular. Poetizo bregamente as pétalas rasgadas.
A minha vida vai bem, obrigada. Em nada tudo isso me desfavorece. Apenas me ocorre o filme da minha vida e me faz recolher. O único que eu preciso é respeito. Exatamente o mesmo que você exige nas suas manifestações. Não me diga o que eu devo fazer, como eu devo agir, porque tudo que você me diz é o que você precisa fazer ou agir. Se a sua consciência te pede, seja fiel a ela.
Isso é verdade. A minha...