sexta-feira, 5 de abril de 2013

ESPECTROS – POR UMA PERSPECTIVA MENOR PARA O MEDIADOR EM TEATROEDUCAÇAO – INTERTRANSMUTADISCIPLINARIDADE DA FÚRIA




Sem medinho da natureza malévola do ser humano, a miséria é o girino da violência. A miséria quando não mata, une. Se une, o embrião da violência cresce e se desdobra simbioticamente em progressão geoaritimética.
Acordar e ter Taffman E e Yakult na geladeira evita o crime. Ter pão, ovo e queijo minas em casa diminui a ânsia por agressão física. 
Defendo então a idéia da auto-regeneração do violento miserável na perspectiva de auto-cura das anomalias geradas pela normalidade rumo a um estado mais autêntico e mais potente em desejo. Da possibilidade de que somos passíveis de escape desta lógica dominante predatória ao desejo...
Geração da própria cura. A cura da opinião, da normalidade e das soluções fáceis partindo da produção de superação da condição de alvo. Superação da miséria de criação, miséria de desejo, miséria de inconformismo, miséria de atitude coletiva e tantas outras co-relações miseráveis.
Como em uma obra de ficção, percebo alterações no modo de operação do sistema social instaurado. Nada de novo, o noticiário relata diariamente estas alterações, seja na notícia propriamente dita, na forma com que se apresenta, sejam nos comerciais... Há que se levá-la em consideração entre uma garfada e outra do jantar, antes da novela.
Estas alterações ultrapassam territórios geográficos, governamentais, culturais e psicológicos. A noção destas alterações se dá pela percepção de falhas dissimuladas recorrentes na configuração social. Conexões veladas, subtextos dominantes, tradições e intenções, informações subliminares que detectadas, passam a assombrar a costumeira perspectiva da vida até onde a vista alcança, os satélites comunicam e as antenas captam.
Alterações que transitaram camaleônicas pelo passado, transitam no presente e transitarão pelo futuro. Assim a noção destas alterações se apresenta como um devir . Devir conspiratório. Fantasmagórico se territorializa e desterritorializa na patologia psicológica paranóia. Confundem-se ocasionalmente.
O devir conspiratório agencia estados de profunda inquietação e inconformismo, provocados pela nítida impressão de que existe um plano, uma lógica invisível regendo a suposta conformidade com o que está posto e assimilado. Suposta porque não está conforme e suposta ainda, porque há uma idéia de que um sistema complexo de subjetividades esteja atuando de fato nesta regência. Neste caso tornar-se-iam insuspeitas as paranóias...
Bem mais lúcidas do que paranóicas, as subjetividades capitalísticas de Guatarri & Rolnick engendram limites na nossa perspectiva de liberdade e impressão de autonomia. As subjetividades capitalísticas definem comportamentos, pensamentos, atitudes, preferências. Definem o amor, o desejo e tudo que se fizer necessário para sua plena permanência. ”É uma subjetividade de natureza industrial, maquínica, ou seja, essencialmente fabricada, modelada, recebida, consumida” .
Eu podia estar roubando, eu podia estar matando mas eu só estou precisando arrumar 5.000 reais...


ANA TIRANA


terça-feira, 2 de abril de 2013

Violência em bom formato

Não sei. Não sei. Me disseram ontem, ou anteontem, que a violência maior em Plínio Marcos, ou nessas histórias cheias de coisas ruins, não estão nos palavrões e porras e fucks, mas no que se faz. Não sei explicar e não estou com paciência de parar agora. Por mais que em Nelson Rodrigues se falasse "pombas", as situações eram trágicas. Vejo as pessoas se confundindo quando uma história tem muitos palavrões, ou gritos raivosos. Elas ficam chocadas. Mas aí penso, se esse filme, ou peça, ou sei lá o que, não tivesse tantos palavrões e gritos, será que seria uma história chocante?
Não importa. Fuck of isso. Isso é apenas um caso. Ou vários. Estou sem paciência e não ligo se estou violentando com meu português e formas corretas de pontuação.

Minha mãe aabou de me dizer que revolta é diferente de revolução. Vejam os farrapos. Vejam os franceses. "Revolta dos Farrapos". "Revolução Francesa". Onde que as coisas deram certo?

Não importa se o filme está no formato de televisão, ou besteirol. Se o conteúdo for impressionante, as coisas mudam. Na verdade, importa, sim. Formato macio e fácil pode dar um ar extremamente interessante a assuntos pesados. A professora Roberta Matsumoto hoje disse que não acredita nesse negócio de forma separada do conteúdo. Algo do tipo.

Fique com um exemplo que eu adoro. Mais uma vez "Natural Born Killers". Só essa cena é assim. Uma beleza.


domingo, 31 de março de 2013

A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica

(Parte I)

Esta reflexão será dividida em 2, 3 ou 4 partes, a depender da necessidade de tempo incubatório dos conceitos, para quem escreve, e a necessidade da absorção homeopática dos mesmos, para quem lê.


A visão marxista sobrescrevendo a dialética. Não em detrimento ou em caráter excludente, pois é necessário estreitamento de laços com a lógica da segunda. Erich Auerbach, Mikhail Bakhtin e Karl Marx repensando a lógica da auto consumação artística e a necessidade da sua reprodução em tempos de cultura de massa.
...
Marx repensou o modo de produção capitalista, apontou ao que ainda poderia ser esperado deste sistema. Deste apontamento depreende-se meios reais de estabelecimento de condições que tornariam possível a sua abolição. Entretanto, o revolvimento da superestrutura se processa mais lentamente que o da infraestrutura. No que isso nos toca? Do pensamento marxista cogitamos teses sobre tendências do desenvolvimento da arte sob as condições de produção. A organização social, nos remete a reflexão do papel da arte na sociedade capitalista, e calcados desta teoria, enxergamos o modo de reprodutibilidade voraz, diante de uma sociedade famigerada pela velocidade.
A obra de arte sempre foi reprodutível, o que os homens fazem sempre foi passível de imitação por outros homens. Esta mimese foi praticada por discípulos, mestres e por terceiros, neste último, para fins lucrativos. Em contraponto, a reprodução técnica da obra é algo novo mas que vem se impondo na sociedade a passos largos. Com a xilogravura, por exemplo, a arte gráfica se tornou reprodutível, muito antes que pela imprensa. A litografia, representa um estágio mais avançado desta técnica. Em 1900, esta reprodução alcança um padrão que começa a causar uma modificação nas obra de arte e conquista um lugar próprio entre os procedimentos artísticos.
Entretanto, ainda que a reprodução seja perfeita, falta o elemento que só pertence à obra de arte no local de sua existência, o "aqui e o agora" da obra original. Este elemento constitui o conceito de sua autenticidade. Sobre este fundamento encontra-se "a representação de uma tradição que conduziu o objeto até os dias atuais, (...) como sendo o mesmo e idêntico objeto." Ainda assim, a reprodução técnica é mais autônoma que a manual, por possibilitar a colocação da original em situações que não podem ser alcançadas pela original. Observe, não se trata de ir mais longe, ou ser mais efetivo, mas sim, da mudança de suporte que carrega a obra, como por exemplo, um show que foi executado num palco, pode ser ouvido num quarto, se submetido a outro suporte. Estas modificações modificam e desvalorizam o "aqui e agora". Tudo isso pode se resumir em dois fatores: o primeiro é a aura, o que desaparece na época da reprodutibilidade técnica da obra de arte. O segundo, trata-se da atualização da reprodução àquele que a recebe, viabilizada pela mudança de suporte e ainda pela atualização por percepção, pelo diferente locus social a que pertence esta persona (relação de construção entre ideologia, posição social e visão de mundo).

Mas, o que é aura?
"Um estranho tecido fino de espaço e tempo: aparição única de uma distância, por mais próxima que esteja. Em uma tarde de verão, descansando, seguir os contornos de uma cordilheira no horizonte ou um ramo, que lança sua sombra sobre aquele que descansa - isso significa respirar a aura dessas montanhas, desse ramo." Partindo desa linguagem figurada, pode-se encaminhar ao entendimento do que é a perda da aura, socialmente. Tentar compreender a sua decadência. Devemos isso ao crescimento das massas e dos movimentos desta vinculados à necessidade de aproximação da obra original, lançando mão, para tal da reprodutibilidade. Condicionante natural deste fenômeno é o seu desgaste social. De modo inconfundível a reprodução se diferencia da imagem original. Na imagem, unicidade e duração, na reprodução, fugacidade e repetibilidade.
A unicidade da obra de arte está estritamente ligada à sua aura, ou seja, à sua imagem original. Neste momento devemos pensar no contexto da tradição, pois a obra de arte está inserida neste, que é completamente mutável. Uma estátua da mitologia grega por exemplo, tem tradição diferente entre os gregos e os clérigos medievais. Sendo no primeiro objeto de culto e no outro símbolo maléfico. É a  relativização da tradição. As obras de arte mais antigas surgiram originalmente a serviço de um ritual primeiramente mágico, depois religioso. O simbólico tomava conta do fazer artístico e deste modo, o valor da obra de arte tinha seu fundamento sempre no ritual. A arte correu um caminho longo em contraposição a esta prática. Pressentiu a aproximação da crise da crença, reagiu com a ideologia da arte pela arte e tomou forma de outras funções sociais. Deste modo, a reprodutibilidade da obra de arte a emancipa  de sua existência parasitária no ritual. No momento em que a autenticidade não se aplica mais à produção artística, revolve-se toda a função social da arte. "Em lugar de se fundar no ritual, ela passa a se fundar em outra práxis: na política."
Política, práxis social da arte!

(Inspirado na obra de Walter Benjamin)

continua...



Eduardo Galeano