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sábado, 2 de março de 2013

Poetry / Violence







sexta-feira, 1 de março de 2013

Cenas Fortes




Cenas fortes. O que de fato torna uma cena forte? No que diz respeito à violência, nem sempre uma cena que possui algum tipo de violência (Física), para mim, é de fato forte. Cresci assistindo filmes ditos por todos como violentos e quase nunca fiquei impressionado de verdade. Desde pequeno eu sabia que tudo aquilo: Sangue voando, cabeças rolando, pessoas partidas ao meio... Tudo isso era artificial e não passava de artifícios “terrorísticos”. 




Talvez eu não indique nenhum pai deixar seu filho pequeno assistir tudo isso como se fosse um desenho animado qualquer. Meus pais não sabiam que eu assistia e gostava desse tipo de filme, até porque eu tinha uns 6, 7anos. Enfim, voltando ao assunto, percebi que os filmes que realmente, para mim, possuem cenas fortes não são tão espetaculosos no que diz respeito à quantidade de sangue e vísceras voadoras, pelo contrário, são os mais “simples”. Já percebeu que essas cenas super sanguinárias não te impressionam e outra cena onde é posto um alicate de corte perto de um dedo, pode lhe gerar uma aflição maior? Está certo que esse exemplo que citei tem outro fator que é o suspense do: vai cortar os dedos? Ou não? Um por um? Ou só um? Sem rodeios. Cena forte é aquela que você assiste e sente como se estivesse assistindo aquilo de verdade perto de você faz você, obviamente em uma escala menor, bem menor.

Cena verdadeiramente violenta( Para o Tiago, eu)

                                                            ( Irréversible, 2002)


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O BIZARRO BAZAR DOS BEZERRA




O que o senhor tá procurando, só vai achar no Bazar dos Bezerra. Fale com Mamita Bezerra. É a matriarca. Perdeu um olho fritando biscoito de polvilho. Dizem que foi num respingo de óleo tão quente e tão grande e certeiro, que fritou seu olho ainda vivo. Ela usa um olho de vidro, que francamente é mais expressivo que o outro. O rosto num geral ficou em dúvida, os olhos são zangados, fazem contraste com os lábios sempre sorrindo que falam uma voz zangada, com risinhos bizarros no fim das falas. Ela é gerente do negócio da família desde o misterioso desaparecimento do marido Pepe. Petrônio Bezerra. Dizem que numa noite sem lua, o velho ouviu uns ruídos estranhos na loja e desceu para investigar armado com um rodo de ferro. Nunca mais foi visto. Bizarro. Mamita desceu pra loja ao amanhecer imaginando que Pepe tivesse dormido no sofazinho perto da porta. Como um cão de guarda. Encontrou apenas o rodo encostado e nunca mais teve notícias de Pepe. O pior é que veio um silêncio de constrangimento tão grande da cidade toda, que nem o delegado teve coragem de se intrometer para investigar nada. No dia do sumiço, dizem que ela preparou o café da manhã para Marlon e Melvin, os gêmeos estrábicos e para Petrina, a mais velha, que tem hipotiroidismo e uns olhos esbugalhados e saltados das órbitas. Bem, ela preparou o café, acordou a família para o trabalho e anunciou que Petrônio Bezerra não morava mais naquela casa. Dizem que Marlon apenas abriu a boca para falar e ela num surto quebrou toda cozinha, jogou geléia e leite quente nos rapazes e tacou ovos em Petrina gritando: - Não se fala mais nisso! - Não se fala mais nisso! Depois arrumou tudo diante do olhar perplexo e bizarro dos filhos e ordenou: - Vamos abrir o bazar! Os filhos, com medo de um novo ataque, tratavam de disfarçadamente proibir o assunto. Quando um freguês perguntava pelo pai:-psssssssssssst!!! e apontavam para a mãe discretamente fazendo sinais que diziam "não se fala mais nisso". Os Bezerra tem família na Europa. Recebem de tempos em tempos, caixas e caixas de roupas para doação. Vem de navio. Este é o principal produto do bazar. Roupas usadas, sapatos usados, óculos até de grau, aparelhos de surdez... dizem que são pertences de gente morta da Alemanha. O bazar tem um cheiro estranho de naftalina misturada com perfume gasto dos antigos donos das roupas usadas, misturado com cheiro de biscoitos caseiros. Biscoitos caseiros também tem pra vender no bazar. Petrina cuida da estante dos biscoitos. Marlon e Melvin sempre jogam cartas enquanto não chega a hora da escola. Eles são bedéus do Carmem Salles, aquele colégio do tiroteio que matou trinta e duas crianças, sabe? Deu em todos os jornais antes da novela. Uma tragédia. O assassino deu um tiro na cabeça, na frente de Marlon e Melvin. Dizem que ele pronunciou algumas palavras diretamente para os dois antes dos miolos explodirem... Acho que é invenção do povo porque na noite daquele dia sangrento, que Deus me perdoe e nos proteja, Marlon e Melvin brincavam de balanço, gargalhando, cantando e uivando... Acho que quem faz isso, brinca assim se divertindo não ouviu palavra nenhuma de assassino. Eu acho. Olha, todos da casa usam as roupas do bazar. É muito fácil identificar. Roupas da Europa, fora de moda, cada xadrez moribundo... Roupas de frio estranhas. Eles são assim, todos bizarros. Mamita Bezerra organiza muito bem as peças nas araras em ordem de cores. Vai facilitar pro senhor. Do mais claro para o mais escuro. Faz isso o dia todo. Todos os dias. As vezes parece que ela acha ruim que alguém entre lá pra bagunçar, mas é só impressão. Mesmo assim cuidado com ela. Petrina é um doce, mas não fala com estranhos. Bom, melhor o senhor se apressar. É que o bazar fecha pro almoço e só abre no dia seguinte.



Ana Tirana