Minha vida nunca foi fácil. Nunca será. Apesar de eu adorar
viver, sei que vou levar muitos nãos por ser quem eu sou. Eu tentei, tenho
várias testemunhas da minha tentativa de ser “normal”. Namorei, transei como se
fosse hétero, me casei com uma mulher, me fiz de homofóbico, enfim, fiz a minha
lição de casa por 28 anos. Por 28 anos eu assisti a minha vida passar. Por 28
anos eu usei máscara.
É, meus amigos, mas descobri de forma dolorosa que as
máscaras caem. E a minha caiu. Daqui a pouco eu conto pra vocês como foi.
Muito prazer, meu nome é Sabrina e eu sou uma transexual MTF
na fase andrógina.
Nunca aceitei ser
menino, mas sabia que não era comum meu desejo por ser menina. Então eu me
escondia. Eu era uma muralha intransponível. Meus pais eram muito pobres e não
podiam me proporcionar luxo nenhum. Eu
era uma criança quieta e obediente, nunca fiz birra por querer algo que eles
não podiam me dar. Eu sabia já nessa época que não seria correto. E também nunca
os questionei sobre meus sentimentos, sob essa mesma ótica. “Como assim? Eu não
posso ser menina! Eu nasci menino, ora bolas!” Um dia eu fui à missa com meus
pais e o padre falou: “Deus realiza o impossível”. Eu fui pra casa e rezei:
“Deus, se o Senhor realiza mesmo coisas impossíveis, quebra um galho pra mim,
por favor! Me transforme numa menina!” Bom, não preciso dizer que meu pedido
não foi realizado. Pelo menos não naquele momento.
Minha adolescência foi muito foda. Hormônios à flor da pele,
descobertas a serem feitas (principalmente descobertas sexuais) e eu me
esquivando disso tudo. Eu sempre repeti pra mim mesma que esse negócio de
querer ser menina seria passageiro. Sempre acreditei numa espécie de cura. E
nesse autoengano eu levava a minha vida. Meu primeiro beijo foi aos 17. Beijo
de língua, beijo de saber o gosto da boca de outra pessoa. Minha primeira
transa foi com uma mulher (pessoa maravilhosa, diga-se de passagem. Sou fã
dela!) aos 23 anos. Com essa mulher me casei e tive certeza de que a amava.
Amava não, amo! Nunca vou deixar de amá-la. Ela foi a minha primeira e última
mulher. A única! Mas o tesão acabou............ela não aguentou a
pressão..............eu não aguentei a pressão...........nós cedemos, nos
arrebentamos juntos, de mãos dadas, de cara no muro de concreto. Contei tudo
pra ela! Era tudo ou nada. Me abri pela primeira vez a alguém. A ela. Por ela e
por mim. Por nós! Joguei todas as minhas cartas na mesa, apostei todas as
fichas. Era ganhar ou perder, não tinha outra saída. Perdi... Ah, 2008
terrível! Ainda bem que você acabou! Eis aí a queda da minha máscara.
Bom, o que dizer da minha vida? Às vezes, adoro ser eu.
Tenho o melhor dos dois sexos. Tenho a força do homem e a sensibilidade da
mulher. Adoro carro antigo, vídeo game, filme violento e detesto novela (coisas de homem), mas
também adoro unhas bem feitas, cabelo hidratado, pele lisinha e tenho uma preguiça tremenda de futebol (coisas de
mulher). Às vezes detesto ser eu. Não sei se participo dos dois gêneros ou se
não participo de nenhum. Isso me causa uma sensação ruim às vezes. O ser humano
tem essa necessidade de pertencimento a alguma coisa. Precisamos de rótulos pra
colar em nossas testas.
As pessoas me olham na rua e ficam com uma interrogação na
expressão. Eu acho divertidíssimo! Um vendedor ambulante me chamou de moça
outro dia. Ganhei aquele dia! Um cara me viu no banheiro masculino e me
confundiu com uma mulher. Ficou em dúvida se tinha entrado no banheiro errado.
Ontem fui a uma festa e o segurança não sabia o que fazer. Se me dava o
baculejo ou não. Adoro essas situações! Já as pessoas que sabem e me conhecem
passaram a me respeitar ainda mais. Não sei se por eu hoje ser uma pessoa
completa, autêntica, ou por algum tipo de piedade, coisa que eu rejeito.
Prefiro pensar que é por reconhecimento mesmo da melhora visível da minha
autoestima. Tenho amigos maravilhosos! Tenho pais e irmãos maravilhosos! Quanto
a isso, estou tranquila.
A noite é minha companheira. Fico muito mais à vontade à
noite. Boates, festas, Vick! Oficina! Rio de Janeiro! Adoro! Maquiagem, salto
alto, decote, saia curta....Adoro minhas pernas, sabiam? São grossas e bem
torneadas. E dei sorte de ter mãos e pés pequenos. Comprar sapatos não é
problema nenhum pra mim. Aliás, eu tenho um monte! Uns 20 pares! E sei a
história de cada um. Meu cabelo é cacheado e enroladinho, parece até que eu
vivo fazendo babyliss. Uma menina me perguntou “como você faz pro seu cabelo
ficar assim tão cacheadinho?” Eu disse “deixo crescer”. Simples assim. Mas a
noite acompanha um certo revés. As pessoas “normais” pensam que somos vampiros,
que ficamos dormindo durante o dia dentro de um caixão e só saímos de nossas
catacumbas à noite. Eu também tenho vida diurna, sabiam? Eu trabalho, vou ao
shopping, ao supermercado, exatamente como os ditos“normais”. E se engana quem pensou que eu sou prostituta.
Nada contra, de verdade mesmo. Quem sou eu pra ter preconceito, não é mesmo?
Mas pra ser prostituta, ou pra ser atriz, ou médica, ou piloto de avião, tem
que ter vocação. E eu não tenho pra nenhuma dessas profissões. Sexo não me faz
tanta falta, eu não tenho veia artística suficiente pra ser atriz, não gosto de
ver sangue e não tive a oportunidade quando mais nova de tentar a carreira de piloto
de avião. Tá justificado? Pra mim está. É isso que importa.
Tenho um amigo gay. O mais gay que eu já conheci. E maravilhosamente
gente boa. São raras pessoas com um coração tão puro quanto o dele. A mãe dele
está temerosa quanto à nossa amizade. Ela diz que eu sou má influência. “É com
esse tipo de gente que você anda?” Sempre fui uma pessoa correta. Ela não me
conhece. Nunca conversou comigo. Foi a primeira vez que eu sou apontada como
sendo má influência para alguém. O ser humano é muito maldoso. Parei pra pensar
sobre o ocorrido e me bateu uma tristeza profunda. Quantas pessoas mais vão me
apontar e dizer que eu sou má influência? Foda-se! Foda-se! Fodam-se os
hipócritas que se lambuzam de prazer com as travestis à noite e falam mal de
homossexuais durante o dia! Foda-se a tia do mercado que fala mal das
travestis, mas não daria emprego a uma em seu estabelecimento! Foda-se o
empresário que põe chifre na esposa e depois vem falar que a gente é que é
promíscuo! Foda-se! A sociedade tem uma imagem deturpada das pessoas que
não seguem o padrão heterossexual. Pensam que nós somos máquinas de fazer sexo.
Que somos a promiscuidade em pessoa. Como diria a Bete, uma atriz maravilhosa a
quem eu tive o prazer de prestigiar: “Não insultem a minha Inteligência. Eu sei
que o problema é com a minha genitália.” A sexualidade humana é muito mais
ampla que essa coisa engessada que a sociedade construiu. Não entendo o motivo
de tanto alarde. Fundamentalistas religiosos nos agridem com palavras e
safanões em nome do “amor de Deus”. Tudo isso porque eu quero adequar o MEU
corpo. O MEU, não o de vocês. MEU, que Deus me deu. Se eu estiver errada, deixa
que eu me acerto com Ele depois, OK? Não preciso de intermediários pra falar
com Deus.
Nesse momento estou confortavelmente metida numa camisola
rosa, deitada no meu pufe, hidratando o meu cabelo e revisando o texto que eu
acabei de escrever pra vocês. Uuuuuuuuiiiii!!!


