Neste quarto encontro de estudos sobre o tema da Violência para produção do novo espetáculo do Liquidificador (veja aqui) assistimos ao filme Polyester de John Waters.
Polyester (1972) Polyester foi uma das primeiras incursões de John Waters ao mainstream que, por sinal, foi muito bem conseguida. Com a sumptuosa Divine a representar o papel da dona de casa suburbana a quem o marido admite ter traído diversas vezes, a película acompanha o breakdown mental da personagem à medida que a sua filha engravida e que o seu filho se torna o principal suspeito de ser o fetichista de pés que tem aterrorizado a região.
Após o filme iniciamos uma discussão sobre a temática e sobre a abordagem irônica e distanciada que Waters apresenta seu filme, colocando o espectador na posição de "violentador".
Isto fez com que fizéssemos uma série de links com a dramaturgia aberta e esta questão de público participante num formato de teatro/jogo.
Este foi um encontro em que cada integrante do processo levou uma referência literária sobre violência. Lemos alguns trechos de livros e outros foram contos na íntegra. Os selecionados até o momento:
Lugar Nenhum - Neil Gaiman
Os Homens que não Amavam as Mulheres - Stieg Larsson
O Cobrador - Rubem Fonseca
Livro de Gênesis - A história do paraíso e a história de Cain e Abel -
Com ilustrações de R. Crumb
Debatemos cada texto selecionado e citamos diferenciados tipos de violência, em diferenciados níveis. Há uma necessidade de busca de gradações num modelo de gráfico para que possamos visualizar as definições e tipos de violência.
Start no processo de estudos para a nossa nova montagem, assistimos ao filme "Benny`s Video" para iniciar as discussões e abordagens sobre o tema da violência.
Violência será o tema do novo processo de montagem do Grupo Liquidificador. É o nome do projeto, mas não necessariamente o nome da peça que montaremos.
Algumas referências que servem de potapé inicial:
Violência é o próximo projeto do Grupo Liquidificador. O espetáculo abordará a crescente onda de violência que assola o Distrito Federal e a relação entre sua população e questões políticas, sociais, culturais e psicológicas. Trata‐se da terceira montagem do Grupo e pretende dar continuidade à pesquisa iniciada em trabalhos anteriores sobre Brasília, bem como a relação de seus moradores com a cidade. Para esta montagem, o Grupo Liquidificador estabeleceu uma parceria com a diretora Ana Flávia Garcia e com o Centro de Estudo em Dramaturgia Aberta (CEDA), ocasionando o diálogo com outros artistas do cenário cultural.
Buscando entender a complexidade da experiência humana, desde os impulsos do inconsciente até as regras sociais estabelecidas culturalmente, o Grupo, em seu terceiro espetáculo, abordará o tema, investigando seus múltiplos aspectos e abordagens. A partir dele, pretendemos abordar não apenas o caráter criminal, como também o político, cultural, ético, psicológico e, principalmente, o instintivo, a violência que cada indivíduo carrega em si mesmo. A dramaturgia terá como linha motora, a cidade e seus habitantes a partir de três subtemas: a Ultraviolência, um mergulho nos desejos e nas pulsões da natureza humana; o Crime‐necessidade, o homem que decide agir sobre outro ou sobre algo para satisfazer algum aspecto que oprime; o Bom‐selvagem, o homem ético e regrado, a cidade em sua mais perfeita organização. Os personagens da peça viverão seus conflitos individuais e serão vigiados por um observador frio e implacável: as câmeras de segurança. A população do Distrito Federal terá um novo retrato sobre a violência, que busca ir além das estatísticas e das manchetes de jornal.
Para esta realização, iremos a algumas referências, por exemplo, as teorias psicanalíticas de Freud, a genealogia do poder de Foucault, as pinturas de Domenico Zampieri, os filmes de Quentin Tarantino, Stanley Kubrick e Martin Scorsese, as peças sanguinárias de Shakespeare, como MacBeth e Tito Andronito. Além disso, buscaremos material criativo em outras obras literárias, como O Processo, de Franz Kafka, com sua abordagem peculiar da violência psicológica, Crime e Castigo, de Fiodor Dostoievski, 1984, de George Orwell, Admirável mundo novo, de Adolf Huxley, Laranja Mecânica, de Anthony Burguess e nas obras brasileiras Memórias do Cárcere de Graciliano Ramos e O Cobrador de Rubem Fonseca. Matérias de jornal e relatos das experiências dos próprios integrantes do grupo e de pessoas próximas ao processo também servirão de material criativo para a criação do espetáculo, dando vida a um espetáculo complexo e multimídia, que discute tanto a cidade, como os indivíduos que a compõe.
O sentimento que me rodeia, uma vontade de nem sei o que... é flor da pele. É sangue. E sangue tem um potencial arrasador.
A trajetória foi longa, mas neste lugar de criação o tempo ganha as nuances da relatividade. O tempo!
O resultado poderia ter sido outro, mas foi este, nem melhor, nem pior. ESSE FOI! Uma taverna regada de punk, uma taverneira disfarçada de músico, a melhor das cidades. Uma pitada de androgenia, antropofagia, e muita solidão. Isso é ULTRA-ROMÂNTICO, a nossa peça-festa, o amor corrente que se mistura com a lama e a carcaça dos morcegos, ratos e baratas que se acumularam no canto da parede pichada. Estão crocantes.
Todos estamos ébrios, assim permanecemos, vinho! Mais uma garrafa. Mais uma! Estão lá no cantinho. No último ensaio, esbarramos em uma delas e saiu uma barata, bem grande. Os gritos se impostam, a energia de todos os ingredientes desta cerimônia, a força de um lugar perdido ao sol de uma sexta-feira 13. Paradoxal se você esperava uma lua cheia. Não espere nada, absolutamente nada. Foram tantos elementos, rememorar todos seria tarefa árdua. Algumas coisas se perderam no meio do caminho, tinha pedra. Outros elementos foram acrescidos a esta coisa gerada. Um tênis digno de lixo, alguns rabiscos no diário de bordo e uma peça... Foi um processo
devastador, aglutinador, destruindo para reconstruir, doloroso!
doloroso...
PRAZEROSO!
doloroso!
Estamos a 8 passos do precipício...
Estamos felizes!
*Dia 05, 06 e 07 de outubro, primeira semana. No CONIC (entrada por trás, ao lado da Casa do Chocolate). Sexta e sábado as 21h. Domingo as 20h. No sábado tem uma festa que dura até 5 da manhã. Quem for à peça na sexta ganha um vale-festa para dia 06, válido até meia noite. Quem for a peça no domingo, ganha um vale-festa para o sábado seguinte.
Chego em casa as 23 horas e 32 minutos de uma quarta-feira, que lá vai macilenta, me sinto tão suja, depois da cena do container de lixo que um banho não basta, me coloco de molho no banheiro até os dedinhos engenharem e lá fico. Amanhece!
Passo meu creme de lichia para o corpo, o de silicone para as mãos e o anti-idade no rosto. Coloco minha calça jeans piriquete, a blusa com os ombros caídos, o cinto rosa choque, jogo o cabelo pro lado e subo no meu salto 15 colorido. Coloco na minha trouxa o tênis escolhido pra morrer, a meia encardida, o short muchibento e a blusa manchada de Qboa. MANO, HOJE TEM...
Chego no ensaio, tiro cinto, blusa caída no ombro, prendo o cabelo, brinco, colar, salto, calça. Coloco meia encardida, tênis escolhido pra morrer, roupa muchiba e vamo nessa!
ENSAIA
...
KAEL PROPÕE
...
IZA PROPÕE
...
KARINNE
...
...
Lá pelas tantas, sentamos, recaptulamos. Cena, mais ordenada agora.
2 piratas lucha libre lutam com Bertram, eles morrem, caem no chão...
O lucha libre caindo no chão...
Depois do golpe de ouro do Bertram, o pirata tenta se defender daqui dali, mas não tem jeito. Momento de colocar a cara no canto, e para que conste, o canto é das baratas, vivas ou mortas, o canto é delas! Prefiro não olhar, até que solenemente, a máscara do lucha libre é retirada e minha cara fica no pó. Virando de barriga pra cima o pirata cabelo dá um grito... eu sabia!!!
Quando eu levanto, sinto cair do meu sutiã a areia, corre nas costas e pára no short.
DUELO DE MORTE - um bofetão e uma luva na cara traz nódoas que só podem ser lavados com sangue.
Quando?
AGORA
E as armas?
SABERÁS NO LOCAL
O lugar?
VENHA COMIGO, ONDE PARARMOS SERÁ O LUGAR.
Preciso rezar, é saudade de minha mãe.
Um brinde!
"Você vai dar 5 passos e cair no chão"
CAIO!
Em seguida sinto cair alguma coisa nas minhas costas. PRESIDENTE. Com as costas molhadas me esticam no chão... a esssa altura da noite, que já não vai macilenta, tomo um gole de Presidente para tirar o gosto de poeira da garganta.
...
...
...
Vamos embora.
Meia hora pra juntar tudo.
Saio feliz do ensaio, imunda e feliz.
Preciso passar no mercado. Não tenho coragem, estou em uma situação de calamidade pública da cabeça aos pés. Mas, eu preciso mesmo, acabou o sabonete e há dois dias e eu tomo banho com o shampoo Sebastian Light.
Olho pra minha roupa. Qualquer descrição é meramente ilustrativa, precisariam ver para acreditar. O cabelo tá duro de poeira e hoje eu perdi minha tiara, então... Não bastasse, olho pros meus braços, qual não foi minha surpresa... a sujeira nos braços se aglutina em pontinhos. Não sei se orientada pelos poros, ou pelos buraquinhos dos cabelos. Mas são pontinhos pretos. Deveria ter fotografado, não faltarão oportunidades.
AO MERCADO
Inflo o pulmão com toda a auto-estima deste ser iluminado e entro. À medida que a luz do mercado se aproxima, eu percebo que estou bem pior do que imaginava. Minha mão está com uma luva marrom, e só o dedão ainda encontra-se branco. Paro. Penso. Lembro do preço daquele shampoo. Entro.
Não tinham muitas pessoas no mercado, mas as que tinham sabiam que eu tinha chegado e não exitaram em dispender alguns segundos das suas vidas para me fitar. A auto-estima joga meu nariz para cima. Pego as bananas, as maças e principalmente os sabonetes.
Vou para fila do caixa. Um tanto previsível que uma pessoa naquelas condições estivesse saindo com sabonetes. FODA-SE. Eu preciso da porra do sabonete.
"8,72, senhora". Abro minha bolsinha de mão. Todos da fila, olham para minhas mãos, pretas inclusive as unhas, os meus braços com pontinhos. E eu elegantemente, tiro o meu cartão sodexho alimentação para pagar a conta. Cara... como tá suja!
De que adiantam tantas referências escondidas e puramente conceituais? Ai, saco. A gente pensa, "será que todo mundo entende"? Não sei. Mas acho que isso não importa. Trabalhamos por vários e vários tempos do dia, semana, mês, ano, pra fazer um produto minimamente interessante às pessoas, aos alvos. Conversamos, discutimos, refletimos, filosofamos sobre tantos mínimos detalhes, tantos momentos de 2 segundos, pra ver quais são as melhores opções. Escolhemos certas coisas que demoraram as ser o que são.
Tenho acreditado que um ponto da arte, além de todas um monte de milhões de coisas, seja medida pelo medida pelo gosto do artista. Claro. Talvez, não novidade. Mas o artista precisa tomar decisões. O ator precisa decidir por certas formas de demonstrar tal coisa (coisa é uma coisa bem ampla), optar por certos movimentos o tempo todo, a cada segundo. Talvez, um artista reconhecido, seja aquele que sabe tomar decisões. E, antes de tomar decisões, ele precisa ser criativo pra ter várias opções pra poder decidir. Cabe ao artista ter a criatividade de escolher a coisa certa a se fazer dentre tantas opções. Na verdade, prefiro não falar "a coisa CERTA a se fazer". Não quero entrar na discussão de certo e errado, bom e ruim, bonito e feio. Deixa isso pra lá.
Ter dúvida, pode ser que sejam no mínimo duas certezas numa mesma pessoa. Eu tenho sempre várias certezas, ou seja, muitas e muitas dúvidas. Mas eu tive que decidir por elas. Fazer parte de um grupo é uma certeza. Fazer um espetáculo, acumula milhões de certezas (entre outras dúvidas que permanecem, claro). Muitas e muitas decisões! E, como já disse, um grande PROCESSO pra chegar em decisões que acreditamos ser certeiras. Cada palavra, cada gesto, cada jogo, cada canção. Gosto de processos e gosto também do "jogo rápido".
Agora, não tem como investir no processo de um "textículo" de blog, porque tem um velho senhor bêbado jogando uma voz bem rouca e bêbada direto no meu ouvido, me perguntando sobre milhões de músicos brasileiros, me perguntando como eles morreram. Às vezes sei, às vezes não sei, às vezes respondo. Perdi a concentração. Mas ficam registrados um pouco de blá blá blá's filosóficos e bem fresquinhos.
Estamos a alguns pouquíssimos dias de entrar pela segunda vez em temporada com nosso espetáculo de estréia e eu estou tranquilo. Acho. A produção está encaminhada, os ensaios já não têm uma certa elegância (haha) e o nervosismo está controlado. Acho que não teria motivo para grandes desesperos. Os primeiros momentos de montagem desse espetáculo aconteceram lá pra 2008. Ou será 2007? Não sei, porque eu entrei na metade de 2009 substituindo o Bruno Antun. Ele estava trabalhando muito em outras coisas na época e teve que largar o processo. O Grupo Liquidificador ainda nem era grupo. Entrei, porque o Fernando começou a fazer Direção I e queria muito concretizar um processo que vinha sendo lento, passado por altos e baixos... Atrizes que iam, mas não foram, que foram substituídas e retrocadas. A Iza mesmo. Ela foi bem no início, mas teve que sair. O Bruno chorou. Aí entrou outra pessoa que nunca foi aos ensaios. Deve ter ido em uns dois, mas foi expulsa. Aí, o Fernando teve que se humilhar pra pedir pra Iza voltar. Ela voltou, mas não podia ir tantas vezes como todos gostariam. Mas o Fernando aceitou a condição.
Sempre discutindo a encenação
A Iza voltou, Bruno saiu, eu entrei. As coisas já estavam bem estruturadas até. Já tinha texto pra decorar. Todos já sabiam suas partes. Uma merda pra quem tá entrando... Boiando no meio de um bando de entendidos que precisam melhorar a didática. Mas tudo ocorreu bem... Sem contar com as minhas crises de ficar me comparando com o antigo Camilo e achar que eu era bem ruim.
Consulta no Dep. de Artes Cênicas
Momento fofo entre Camilo e Vilela
Passado isso (ou não), apresentamos no dia do meu aniversário de 20 anos: dia 7 de dezembro de 2009, no Cometa Cenas, BSS-59. Uma peça ainda imatura, com cenas ainda imaturas e interpretações ainda imaturas, mas com muita vontade de acontecer. Figurinos, cenário, adereços vindos de casa, emprestados, ou comprados no 1,99. Bem legal. Depois dessa apresentação fomos ao Beirute sul comemorar meu aniversário. Fizemos uma mesa em T. Foi muita gente legal, muitos amigos felizes e até as professoras Felícia Johansson e Izabela Brochado. Ui, me senti importantinho.
A gente ainda não beijava de língua
Daí, ok, passamos bastantes tempo sem fazer nada. Acho que a gente pode ter se encontrado pra ler o texto, ou coisa do tipo, no início de 2010. Mas nada muito significativo.
Um certo dia, o Fernando marcou uma reunião na casa dele pra falar sobre o espetáculo, pra falar de uma temporada. Era o que todos, ou, pelo menos, a maioria esperava. Claro que estávamos dispostos a fazer uma temporada bem feita da peça. Mas o Fernando propôs uma coisa a mais: montar um GRUPO. Um grupo, grupo sério, grupo oficial, grupo legal. Por essa eu não esperava. Achei legal. Super topei, assim como todos... Todos eram Fernanda, Kael, Karine, Iza e Tiago. O Glauber tava nessa reunião, mas não tinha sido convidado ainda.
Essa é a foto que eu mais gosto de todas!
Tínhamos que nos dar um nome. Fernando sugeriu Liquidificador, mas não fez muito sucesso de cara. Eu sugeri Teatro Elétrico, ou Abacaxi Elétrico, mas causou polêmica. Então, resolvemos cada um sugerir nomes e fizemos uma votação. Os nomes eram ótimos: Teatro do Mussum, Teatro (ou Grupo) Qual, que a Iza sugeriu com muito orgulho, mas achei bosta... Entre outros nomes que agora não to lembrando... Além de Grupo Liquidificador e, que eu adoro, Teatro Elétrico. Não precisa nem dizer o mais votado. Com esse novo nome e oficializados, entramos em uma temporada de um mês (4 findis) no Teatro Galpão, no Espaço Cultural Renato Russo. Não tivemos patrocínio, ou apoio, nem nada... Tivemos é o investimento de meses do Fernando... 3000 reais pra montar um espetáculo com cenário e figurinos novos. Conseguimos. Encontramos uma costureira bem baratinha que tinha a bandeira da Weslian Roriz na janela, um marceneiro que, por conta própria, resolveu pintar os móveis com um verniz avermelhado e um teatro que quase não cobrava pauta, mas era possível ouvir três vezes uma frase que foi dita apenas uma vez (eco). Os figurinos ficaram prontos acho que 1 ou 2 dias antes. A Karine chorou, porque ela não gostou. O Fernando mandou ela parar de fazer drama, porque a gente precisava fazer o ensaio geral e a Karine aos prantos disse que ele estava acabando com o psicológico dela. O Tiago quase não ficou pronto na hora, porque tinha ficado até pouco tempo atrás montando a luz, que ficava uns 10 metros do chão.
Nos meses de outubro e novembro de 2010 tivemos nossa estréia comercial! Foi massa. Deu menos da metade da lotação, foi uma apresentação ruim, mas tava tudo bem, porque nascia novamente e oficialmente um espetáculo que custou aparecer. Eram os melhores momentos da minha semana. A semana não era tão ruim, mas ficava muito ansioso pra chegar o final de semana pra ficar com meus amigos comendo XIS-CARTOMANTE que a gente comprava no SuperMaia. Cada um tinha seu espaço no camarim, mas a Karine sempre invadia meu espaço. A gente brigava. Foi muito bom.
Todas as fotos de cena são da Raquel Pellicano!
Apesar de ter tido um pequeno dinheiro para investimento e retorno apenas da bilheteria, conseguimos lucrar e dividir igualmente entre Fernando, Fernanda, Elisa, Iza, Glauber, Kael, Karine e Tiago. Acho que demos um tanto pra Bárbara, que fez a arte e pra quem fez a filmagem. Acho que quase chegava a 200 reais o nosso cachê.
Depois de tudo acabado, férias chegaram, paramos um pouco. Mas tínhamos novos planos. Fazer um novo espetáculo.
Iniciamos no início 2011 o processo de adaptação do livro "Noite na Taverna",de Álvares de Azevedo. Mas paramos pra inscrever dois projetos no FAC: montagem de "Noite na Taverna" e circulação regional de "A Cartomante". E adivinha... Passamos nos dois!
Agora, "A Cartomante", com dinheiro pra fazer coisas, reformulou todo seu planejamento e logísticas, estética e coisas mais sei lá o que, e tá fazendo coisas mais bacanas. Agora estamos mais trabalhadores, na verdade. Somos um grupo mais sério. Temos até carimbo da logomarca. Vamos pagar nossos amigos, vamos receber nosso salário, vamos apresentar em 4 teatros ótimos do DF, vamos ter uma divulgação mais interessante e efetiva... Vamos ter que pagar alguns direitos autorais pro ECAD.
Novas coisa virão. E eu cansei de falar sobre isso hoje. Tenho falado muito nisso. Cansei. Amanhã falo mais. Na verdade, falo mais na próxima semana. Talvez nem precise. Talvez esteja mais inspirado. Talvez lembre de mais coisas. Talvez alguém me faça perguntas e eu as responda aqui... Na próxima terça...
Pra finalizar, um bônus pra completar um comentário. Essa música abaixo é da cena do aniversário do Camilo. Os três estão bebendo e essa música começa a tocar. Camilo e Vilela se olham como que se comunicando, vão cada um à uma diagonal do palco e dançam a música. Nos ensaios antigos, a dificuldade não era dançar a música, não era falar o texto enquanto ela tocava alto (era um pouco difícil sim). A maior dificuldade era mostrar pelo entreolhar um subtexto mais ou menos:"Olha. Lembra-se desta canção, amigo? A música que a gente dançava quando éramos pequenos. Que nostalgia, como éramos feliz, que momentos belos!" Hahaha... Mas, Tiago e eu, sempre fazíamos milhões de caras pra passar algo que chegasse a algo do tipo. Horrível. Não precisa de tanto psicologismo, gente. Só fazer uma cara feliz, ir pra diagonal e dançar. É assim que vão ver a cena. Tentem lembrar.
Queer é uma identidade definida contra a dominação
hetero-monogâmica-patriarcal-branca e também uma identidade que se aproxima com
aquelas pessoas que estão marginalizadas e oprimidas. Queer representa sexualidades e gêneros, mas também muito mais. Queer é a resistência ao regime do "normal". Em sociedades em que até o uso de banheiros é motivo de segregação humana (veja o vídeo do Laerte), é preciso pensar para onde estão indo as lutas por direitos sociais.
Punk e questões de gênero
A rejeição do sexismo pelo movimento punk é uma batalha contínua para educar aqueles que nela entram com suas imagens estereotipadas ainda intactas. Muitos punks se posicionaram contra o especismo, o racismo, a proliferação nuclear etc. apenas para se contradizerem ao praticar ou aceitar o sexismo. Embora as bandas frequentemente recebam severas críticas por usar imagens ou letras sexistas em seus discos, esse é um problema pequeno, mas consistente. Os fanzines e os distribuidores punks de vez em quando deparam com o fato de ter que recusar discos ou anúncios contendo imagens ou letras declaradamente sexistas. Não há como negar que o sexismo existe dentro da comunidade punk, mas isso ocorre num nível menor do que na sociedade em geral e, mais importante, é desencorajado e condenado por muitos participantes ativos, ao contrário do que ocorre na sociedade comum, onde ele é raramente condenado ou mesmo discutido, a não ser pelas feministas. Em vez de lidar com as atitudes negativas similares às da sociedade comum, é mais produtivo debater as opiniões da maioria dos punks ativistas que se declaram anti-sexistas.
Muitos punks gays acham que o movimento gay foi cooptado e é basicamente inexpressivo. "O movimento gay como é hoje é uma grande farsa e nós não temos nada de bom para dizer a respeito..." (funzine homocore #7) Os punks homossexuais, porém, têm muitas coisas ruins para dizer. Contrastando com uma visão da igualdade sexual, há a misoginia velada presente na cultura gay "que privilegia a cultura das bichas (masculino) em detrimento das lésbicas (feminino)" (idem) . É estranho ver um domínio masculino presente no campo das relações de mesmo sexo, mas uma visita a livrarias, bares e atividades dirigidas por gays de qualquer cidade grande irá mostrar que o masculino é que age como foco principal.
Queer Culture
Queer
é um termo reclamado. Seu uso contemporâneo é para descrever gêneros e
sexualidades que não se conformam com a sociedade heteronormativa.
A
maioria das pessoas entendem queer como sinônimo de GLBT. Este entendimento
falha em analisar a experiência de pessoas queer.
Queer não é
uma área estabelecida, queer não é uma identidade que faz parte de uma lista de categorias sociais corretas e aceitas. A
normalidade é a tirania da condição queer. A normalidade é violentamente
imposta a cada dia, a cada hora. A normalidade é a miséria e a
opressão. A normalidade é o Estado, é o capitalismo. É o colonialismo e o
império. É a brutalidade. É violação. A normalidade é cada forma em que
limita a identidade ou faz aprender a odiar os próprios corpos.
Este
discurso queer, é sobre a luta contra a normalidade. Para o queer
significa guerra social. E quando falam de queer como um conflito contra toda
a dominação, o falam seriamente.
O normal, o heterossexual, a família comum, estes exemplos sempre foram
construídos em oposição a eles. Heterossexual não é queer. Saudável não tem HIV.
Homem não é mulher. Os discursos da heterossexualidade, o patriarcado, o
capitalismo se reproduzem a si mesmos como um modelo de poder. Para o resto da sociedade só há morte.
Nas ruas um "maricas" é espancado porque sua representação de gênero
é muito feminina. A um pobre homem transexual que não consegue o dinheiro para
seus hormônios salva vidas. Trabalhadores/as sexuais são assassinados por seus
clientes. Um genderqueer é violada porque necessitava "ter sexo
heterossexual". Mulheres lésbicas são encarceradas por defender-se contra
homens heterossexuais que as agridem. A polícia os brutaliza nas ruas.
Queers experimentam, diretamente com seus próprios corpos a violência e a dominação
deste mundo. Teem seus corpos e desejos roubados.
A perspectiva queer dentro do mundo heteronormativo é a que os permite
criticar e atacar o aparato capitalista. Eles podem analisar as formas em que
a medicina, a igreja, o Estado, o matrimônio, os meios de comunicação, as
fronteiras, o exército e a polícia são usados para os controlar e destruir. E
ainda mais importante, podem usar estes casos para articular um criticismo
coeso de todas as formas em que são alienados/as e dominados/as.
A posição queer é uma posição onde se ataca o normal. E é desde esta posição
que a história dos queers organizados tem tomado sua forma. Os/as mais
marginalizados - pessoas trans, pessoas de cor, trabalhadores/as sexuais -
sempre tem sido a base das chamas da resistência militante queer. Esta
resistência tem sido acompanhada pela análise radical que afirma que a liberação
queer está amarrada com a aniquilação do Estado e do capitalismo.
Se a história prova algo, é que o capitalismo tem uma tendência de pacificar os
movimentos sociais. Isto, trabalha simplesmente. Um grupo ganha privilégio e
poder dentro do movimento e pouco depois, traem seus companheiros/as. Alguns
anos depois dos distúrbios de Stonewall, homens gays brancos e de classe média
marginalizaram toda a gente que havia feito seu movimento possível e
abandonaram a revolução.
Antes, se queer era estar em conflito direto com as forças de dominação. Agora os toca enfrentar ao estancamento total e a esterilidade. Como sempre,
o capital transformou trans que atiravam pedras nas ruas em políticos e
ativistas bem vestidos. Há gays republicanos e democráticos. Há países onde até
há bebidas energéticas "gay" e canais de televisão "queer"
que fazem a guerra mental, com o corpo e a autoestima da juventude. O
estabelecimento político "GLBT" converteu-se numa força de
assimilação, gentrificação e do poder estatal e capital. A identidade gay se
converteu em um produto, uma comodidade e um aparato que funciona para
retirar-se da luta contra toda a dominação. Agora já não criticam nem o matrimônio, nem o exército, nem o capitalismo, nem
ao Estado. Há campanhas para a assimilação queer dentro de cada uma. Suas
políticas apóiam todas as instituições que reinformam a heteronomatividade, em
vez de buscar a aniquilação daquelas. "Gays podem matar pessoas pobres da
mesma forma que pessoas heterossexuais!" Gays podem ter reinos de capital
e poder igual as pessoas heterossexuais!" "Somos iguais a
vocês!"
Assimilacionistas buscam nada menos que construir o homossexual como o normal -
rico, monogâmico, carros luxuosos, residências privadas. Esta construção,
claramente reproduz a estabilidade da heterossexualidade, o patriarcado, o
binário de gênero, o capitalismo.
Se nós realmente queremos destruir esta normalidade, necessitamos tomar uma
posição firme. Não necessitam da inclusão ao matrimônio, nem do exército, nem
do Estado. Tem-se que destruí-los. Não mais políticos/as, nem chefes, nem
policiais gays. Necessitam separar as políticas de assimilação e as políticas
de libertação.
Necessitam reencontrar a sucessão como queer anarquistas
descontrolados/as. Necessitam destruir estas construções da normalidade, e ao
invés, criar posições baseadas em suas contrariedades a esta normalidade, uma
alternativa capaz de desmantelá-la. Necessitam usar esta posição para
instigar rupturas, não só destas políticas de assimilação, mas do capitalismo
em si mesmo.
Estes corpos nasceram em conflito com a ordem social, tem que aprofundar
este conflito e fazer com que se espalhe.
Deve-se criar um espaço onde é possível desejar. Este espaço, obviamente,
requer conflito com a ordem social. Para desejar, em uma sociedade estruturada
para confinar o desejo, é uma tensão que vivem diariamente.
Este terreno, que nasce na ruptura, deve desafiar a opressão em sua
integridade. Isto significa a negação total ao mundo. Devem voltar os
corpos em rebeldia. Podem apreender a fortaleza de seus corpos em
rebeldia para criar o espaço para seus desejos. No desejo encontrarão o
poder para destruir o que os destrói. Tem que estar em conflito com o regime
do normal.
Este artigo é uma adaptação e tradução do panfleto "Towards the queerest insurrection”
Kenneth
Anger, John Waters, Divine e outros
Kenneth Anger é um cineasta undergroud, célebre por seus filmes experimentais que envolvem temas como homoxessualismo, ocultismo e cultura pop. É de grande influência na cultura queer. Influenciou também cineastas como Martin Scorsese e David Lynch. É considerado por muitos críticos como um fetichista.
John Waters teve destaque na contracultura dos anos 70 com seus filmes cult transgressivos. Uma de suas "atrizes fetiches" era a travesti Divine, que participa de grande parte de seus filmes. John trabalhou também com criminosos convíctos e atrizes pornôs em suas películas.
Rainer Werner Fassbindes tem mais de 40 filmes que falam sobre sedução, rebeldia gay, lealdade e dominação. Os temas fortes, a estética kitsch, o mundo gay e as aterradoras interpretações dos atores conquistaram o mundo. Curiosamente foi um precursor da cultura do couro.
Queercore
Militância, movimento punk e peso. De fanzines
obscuros a influência na cena alternativa, a história do
movimento único no gueto
Por Breno Soares
Em tempos de liberdade de expressão, onde a mídia
mostra o que deseja mostrar, onde os jornalistas protestam e onde
a censura já não é tão forte quanto na época da ditadura, vemos
tantos movimentos surgirem quanto pessoas podem criá-los.
A música como instrumento de protesto, tanto quanto de prazer não poderia ficar de fora. Desconhecido por muitos, o Queercore é um movimento com poucos expoentes de sucesso como Marilyn Manson, que por razões de mercado caiu fora desse. Outros mais obscuros vestem a camisa e batem no peito.
O Queercore é filho do punk, um braço do estilo que
resolveu caminhar pelas ruas gays da música. Protesta, grita, é pesado
e muitas vezes sujo como punk, mas gay em suas letras e atitudes.
Considerado mais que apenas um movimento musical, o
Queercore é considerado um movimento social e cultural que teve
início em meados da década de 80 e mesmo sendo um movimento gay,
preferiu (ou foi obrigado) a ficar afastado das rodas gays e
lésbicas da época. Mesmo tendo surgido do punk, o movimento
compreende atualmente artistas em outros gêneros musicais como:
hardcore punk, synthpunk, indie rock, power pop, no wave, noise,
experimental, industrial, etc. Pois ser Queercore hoje em dia é
muito mais que fazer punk gay e sim ter a atitude do grupo.
God Is My Co-Pilot; Team Dresch; Fifth Column; NUCLEAR FAMILY; Sister George
Inicialmente chamado de Homocore, os primeiros gritos do movimento foram ouvidos por um zine canadense, de Toronto, fundado por G.B. Jones e co-publicado por Bruce LaBruce, o J.D.s Este é considerado o início do movimento. Teve oito publicações de 1985 até 1991.
A coisa pegou mesmo quando depois das primeiras
edições do J.D.s. Os editores escreveram um manifesto entitulado
“Não seja gay”, mesmo nome de um artigo originalmente lançado em
outro fanzine da época, Maximum RocknRoll. O artigo foi lançado pelo Maximum em Fevereiro de 1989 e atacava tanto a cultura punk quanto a cultura gay.
O J.D.s respondeu com esse manifesto e logo em
seguida lançou um fita com os nomes mais expoentes do Queercore, como
as bandas canadenses Fifth Column e Nikki Parasite, a americana Bomb,
as inglesas The Apostles, Academy 23 e No Brain Cells além da Gorse,
da Nova Zelândia. Nessa época muitas bandas da cena estavam levando o
título de Queercore, muito mais pelo seu suporte ao movimento, e não
necessariamente bandas de gays. Depois Los Crudos e Go! vieram a engrossar a lista, mas desta vez tendo algum membro queer ou gay assumido.
“(…) Talvez a definição esteja baseada mais na
expressão individual, mas dizem que é o tipo de coisa que você
reconhece quando vê. Ao invés de tentar categorizar e definir, as
pessoas tendem a se juntar a ele, exatamente por sua diversidade,
por ser interessante e pelas possibilidades a serem
desenvolvidas a partir do conceito original. Muitas pessoas
optam por usar o termo queercore pra se afastar das imagens
trazidas pela associação com o movimento punk, e para incluir
tanto os punks gays como todas as outras coisas que refletem suas
idéias básicas (…).”
revista Oasis.
Funzine Queercore
Este foi o fanzine que inaugurou o movimento Queercore. (estas são algumas das páginas)
Continuamos nas nossas buscas das Tavernas Contemporâneas, em outubro nossa peça-festa ultra-romântica. Mais informações CliqueAqui.