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quarta-feira, 5 de março de 2014

Venetian Snares

Tenho tentado criar um banco de dados das coisas que afetam os outros atores do AFECTOS - titulus provisóris. A vontade é pegar cada um na espinha, pegar por trás, surpreender. Causar medo, espanto, pânico. Muáááááá. Estraçalhar até virar pó. Daí renascer das cinzas. É aquela velha ideia que diz que as pessoas possuem muitos conteúdos reprimidos e que basta um empurraõzinho no ângulo certo para que muita merda seja liberada.

Mas bicho, hãn?
play plis. sou carente.


quinta-feira, 11 de abril de 2013

A IRA DE UM ANJO...


sexta-feira, 5 de abril de 2013

ESPECTROS – POR UMA PERSPECTIVA MENOR PARA O MEDIADOR EM TEATROEDUCAÇAO – INTERTRANSMUTADISCIPLINARIDADE DA FÚRIA




Sem medinho da natureza malévola do ser humano, a miséria é o girino da violência. A miséria quando não mata, une. Se une, o embrião da violência cresce e se desdobra simbioticamente em progressão geoaritimética.
Acordar e ter Taffman E e Yakult na geladeira evita o crime. Ter pão, ovo e queijo minas em casa diminui a ânsia por agressão física. 
Defendo então a idéia da auto-regeneração do violento miserável na perspectiva de auto-cura das anomalias geradas pela normalidade rumo a um estado mais autêntico e mais potente em desejo. Da possibilidade de que somos passíveis de escape desta lógica dominante predatória ao desejo...
Geração da própria cura. A cura da opinião, da normalidade e das soluções fáceis partindo da produção de superação da condição de alvo. Superação da miséria de criação, miséria de desejo, miséria de inconformismo, miséria de atitude coletiva e tantas outras co-relações miseráveis.
Como em uma obra de ficção, percebo alterações no modo de operação do sistema social instaurado. Nada de novo, o noticiário relata diariamente estas alterações, seja na notícia propriamente dita, na forma com que se apresenta, sejam nos comerciais... Há que se levá-la em consideração entre uma garfada e outra do jantar, antes da novela.
Estas alterações ultrapassam territórios geográficos, governamentais, culturais e psicológicos. A noção destas alterações se dá pela percepção de falhas dissimuladas recorrentes na configuração social. Conexões veladas, subtextos dominantes, tradições e intenções, informações subliminares que detectadas, passam a assombrar a costumeira perspectiva da vida até onde a vista alcança, os satélites comunicam e as antenas captam.
Alterações que transitaram camaleônicas pelo passado, transitam no presente e transitarão pelo futuro. Assim a noção destas alterações se apresenta como um devir . Devir conspiratório. Fantasmagórico se territorializa e desterritorializa na patologia psicológica paranóia. Confundem-se ocasionalmente.
O devir conspiratório agencia estados de profunda inquietação e inconformismo, provocados pela nítida impressão de que existe um plano, uma lógica invisível regendo a suposta conformidade com o que está posto e assimilado. Suposta porque não está conforme e suposta ainda, porque há uma idéia de que um sistema complexo de subjetividades esteja atuando de fato nesta regência. Neste caso tornar-se-iam insuspeitas as paranóias...
Bem mais lúcidas do que paranóicas, as subjetividades capitalísticas de Guatarri & Rolnick engendram limites na nossa perspectiva de liberdade e impressão de autonomia. As subjetividades capitalísticas definem comportamentos, pensamentos, atitudes, preferências. Definem o amor, o desejo e tudo que se fizer necessário para sua plena permanência. ”É uma subjetividade de natureza industrial, maquínica, ou seja, essencialmente fabricada, modelada, recebida, consumida” .
Eu podia estar roubando, eu podia estar matando mas eu só estou precisando arrumar 5.000 reais...


ANA TIRANA


quinta-feira, 21 de março de 2013

PESSIMISMO É DE MORTE! Desesperancia – palavras de desespero, sem expectativa, sem frustrações, sem dor, com violência, com ânsia.




Saber de si pode ser violento porque falar de suas descobertas sobre si e ser desqualificado é muito mais violento ainda.

É de bom tom não falar muito sobre si. Primeiro porque não é assunto que dure, francamente. Depois porque não interessa tanto assim ao outro. Verdadeiramente não. O pessimismo neste caso está tão próximo da realidade, quanto o otimismo do desespero. Quem fala, fala, fala de si não será perdoado pelos ouvidos alugados. Não se iluda, apenas se toque.

Quem se importa com suas descobertas pessoais interiores verdadeiramente, sem pegar sua fala e transformar em um exemplo pessoal para roubar o foco, com verdade  e generosidade legítimas, já morreu. Não nasceu. Nem existiu.

Saber que você será sempre a segunda pessoa para o outro (se tiver sorte...), que a única pessoa para quem você é prioridade máxima é pra você mesmo é bastante desolador. Sua história triste tão interessante é só sua. “Só o prazer é compartilhável, a dor é individual.” Pessoal, intransferível... Como a morte.

Há um tempo em que o sujeito precisa saber identificar o que é amizade e o que é condescendência. Ou saber que ambas são uma mesma coisinha. O homem é um bicho só e social. A mulher também. Se você não é capaz sozinho não será capaz de maneira nenhuma. Há quem não consiga olhar para si no espelho profundamente sem sentir medo. Há quem não consiga olhar para si no espelho e dizer: Eu sou fulano de tal. O espelho não é seu amigo e tampouco será condescendente.

A solidariedade é uma coisinha inventada pelo sistema capitalista para engambelar os pobres e salvá-los da extinção. Assim como a honestidade. Só se aplica a eles mas tem rico que cai às vezes. O amor não. O amor é outra coisa. Se você sente machuca, se o outro sente ele que se foda e vive versa.

Ainda há uma hipótese remota sob a chuva, escorrendo para alguma boca de lobo, sobre sua tendência em achar que neste momento alguém pensa em você. Você pode acreditar nisso ou tomar alguns comprimidos. Importante saber que ninguém quer saber da sua porção dor e da sua porção euforia só aos fins de semana com álcool e som automotivo no estacionamento do super. É por fim um soco no estômago libertador.

Pois eu gostaria de ser extremamente inconveniente, agora que todos estamos livres para não nos importamos mais com ninguém, sem formalismos instituídos. Serei agora inconveniente e despejarei aqui as minhas mais novas descobertas pessoais totalmente desinteressantes. Vou ferir sua integridade moral contando aqui agora, com todas as palavras, nos mínimos detalhes minha experiência pessoal, quando colocada frente a frente com outra pessoa, fui confrontada com a seguinte pergunta:

QUEM É VOCÊ QUE ESTÁ AÍ DENTRO NESTE MOMENTO? choro convulsivo durante 40 segundos.

Eu sou um balão eu sou uma enxurrada eu sou uma panela vazia eu sou um girassol eu sou mãe eu sou confusão eu sou som alto eu sou frágil eu sou agressiva eu sou água de torneira eu sou borboleta eu sou tubarão eu sou você que me fita eu sou ontem eu sou destruição eu sou panela cheia eu sou banana madura eu sou experiências eu sou cor de rosa eu sou murcha eu sou pipa eu sou urso polar eu sou egoísta eu sou lágrima eu sou filha eu sou meu carrasco eu sou raiva eu sou lápis de cera eu sou brigadeiro de colher eu sou perdão eu sou azia eu sou o fim da picada eu sou perfumada eu sou girassol...

E aí acabou o tempo. Agradeci a quem me ouviu porque me pediram. Mas foi de coração. A dor é de cada um, só. Mas a poesia cura.


Ana Tirana
 

quinta-feira, 14 de março de 2013

ENGOLE ESSE CHORO!




Engole esse choro
Enquanto os gatunos homicidas asquerosos hipócritas bandidos sórdidos fratricidas pedófilos estupradores ladrões assassinos manipuladores corruptos imundos desprovidos de qualquer sinal de civilidade ou caráter toscos desavergonhados cadelonas podres egoístas mercenários mentirosos estúpidos corja de almas sebosas espíritos de porco chauvisnistas homofóbicos sexistas psicopatas estorvos sujos especuladores inescrupulosos preconceituosos atolados na merda usurpadores agiotas arrogantes imbecis aproveitadores nojentos dormem tranquilos, eu passo a madrugada engolindo o choro.
Você é de onde? De Brasília e estou aqui sozinho com milhares de pessoas sozinhas na madrugada engolindo esse choro. Ninguém quer atirar a primeira pedra ou matar o primeiro canalha. Ninguém está pronto pro confronto fatal, que envolve bater, apanhar, apanhar, apanhar e morrer ou matar. Ninguém está pronto pra continuar engolindo e regurgitando e vomitando e engolindo e cagando diarréia dessa lama asquerosa que estão nos enfiando goela baixo todo dia. Ninguém consegue mais cuidar da sua vida e nem consegue cuidar disso que fode a vida de todo mundo. Ninguém aguenta mais reclamar e não fazer nada e nem consegue fazer alguma coisa. Ninguém suporta mais essa porra toda e simplesmente toca sua vida. Ninguém é todo mundo. Ninguém.
Este momento é de um enorme holocausto de vivos tristes arrebatados pela força maligna que paira no ar escancaradamente e que sutilmente rouba cada migalha da dignidade existente. Este momento se alimenta da burrice e da inteligência, da pobreza e da riqueza, da saúde e da doença, da fé e da descrença. Este momento está mórbido. Moribundo. Este momento representa o ápice de um sistema massacrante e falido. Este momento é o orgasmo múltiplo da inconsistência. É o prenúncio de um colapso. Este momento vai ruir. Este momento vai se auto destruir a olhos vistos em praça pública em cadeia nacional no horário nobre via satélite antes da chuva. Este momento tem os dias contados.
Eu não tenho certeza nenhuma sobre o que será de nós, mas também não tenho dúvida.
Engole esse choro.
Ana Tirana

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O BIZARRO BAZAR DOS BEZERRA




O que o senhor tá procurando, só vai achar no Bazar dos Bezerra. Fale com Mamita Bezerra. É a matriarca. Perdeu um olho fritando biscoito de polvilho. Dizem que foi num respingo de óleo tão quente e tão grande e certeiro, que fritou seu olho ainda vivo. Ela usa um olho de vidro, que francamente é mais expressivo que o outro. O rosto num geral ficou em dúvida, os olhos são zangados, fazem contraste com os lábios sempre sorrindo que falam uma voz zangada, com risinhos bizarros no fim das falas. Ela é gerente do negócio da família desde o misterioso desaparecimento do marido Pepe. Petrônio Bezerra. Dizem que numa noite sem lua, o velho ouviu uns ruídos estranhos na loja e desceu para investigar armado com um rodo de ferro. Nunca mais foi visto. Bizarro. Mamita desceu pra loja ao amanhecer imaginando que Pepe tivesse dormido no sofazinho perto da porta. Como um cão de guarda. Encontrou apenas o rodo encostado e nunca mais teve notícias de Pepe. O pior é que veio um silêncio de constrangimento tão grande da cidade toda, que nem o delegado teve coragem de se intrometer para investigar nada. No dia do sumiço, dizem que ela preparou o café da manhã para Marlon e Melvin, os gêmeos estrábicos e para Petrina, a mais velha, que tem hipotiroidismo e uns olhos esbugalhados e saltados das órbitas. Bem, ela preparou o café, acordou a família para o trabalho e anunciou que Petrônio Bezerra não morava mais naquela casa. Dizem que Marlon apenas abriu a boca para falar e ela num surto quebrou toda cozinha, jogou geléia e leite quente nos rapazes e tacou ovos em Petrina gritando: - Não se fala mais nisso! - Não se fala mais nisso! Depois arrumou tudo diante do olhar perplexo e bizarro dos filhos e ordenou: - Vamos abrir o bazar! Os filhos, com medo de um novo ataque, tratavam de disfarçadamente proibir o assunto. Quando um freguês perguntava pelo pai:-psssssssssssst!!! e apontavam para a mãe discretamente fazendo sinais que diziam "não se fala mais nisso". Os Bezerra tem família na Europa. Recebem de tempos em tempos, caixas e caixas de roupas para doação. Vem de navio. Este é o principal produto do bazar. Roupas usadas, sapatos usados, óculos até de grau, aparelhos de surdez... dizem que são pertences de gente morta da Alemanha. O bazar tem um cheiro estranho de naftalina misturada com perfume gasto dos antigos donos das roupas usadas, misturado com cheiro de biscoitos caseiros. Biscoitos caseiros também tem pra vender no bazar. Petrina cuida da estante dos biscoitos. Marlon e Melvin sempre jogam cartas enquanto não chega a hora da escola. Eles são bedéus do Carmem Salles, aquele colégio do tiroteio que matou trinta e duas crianças, sabe? Deu em todos os jornais antes da novela. Uma tragédia. O assassino deu um tiro na cabeça, na frente de Marlon e Melvin. Dizem que ele pronunciou algumas palavras diretamente para os dois antes dos miolos explodirem... Acho que é invenção do povo porque na noite daquele dia sangrento, que Deus me perdoe e nos proteja, Marlon e Melvin brincavam de balanço, gargalhando, cantando e uivando... Acho que quem faz isso, brinca assim se divertindo não ouviu palavra nenhuma de assassino. Eu acho. Olha, todos da casa usam as roupas do bazar. É muito fácil identificar. Roupas da Europa, fora de moda, cada xadrez moribundo... Roupas de frio estranhas. Eles são assim, todos bizarros. Mamita Bezerra organiza muito bem as peças nas araras em ordem de cores. Vai facilitar pro senhor. Do mais claro para o mais escuro. Faz isso o dia todo. Todos os dias. As vezes parece que ela acha ruim que alguém entre lá pra bagunçar, mas é só impressão. Mesmo assim cuidado com ela. Petrina é um doce, mas não fala com estranhos. Bom, melhor o senhor se apressar. É que o bazar fecha pro almoço e só abre no dia seguinte.



Ana Tirana

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Violensia: subs. poema de cunho violento, agressividade poética, horror em verso, rimas malditas.



Dia da costureira

Ela ria e girava tonta na rua
Nua sacodia o corpo
Espalhava sucata, entulho de histeria
Entupia as bocas de lobo
Ela ria e não entendia
Não pagaria mais, nem mataria por amor
Só girava a gastura, o entojo, a paúra
Num breve espaço entre a demência e o torpor
Ela ria e pedia licença
Nua, sucata, restos
Dura de frio entupida de alma
Ria chorava e enchia a vida
Num copo de tempestade e calma
Ela ria o filho, o pai, o pai do filho e o espírito santo
O luto permitido pelo fruto proibido
Rodopiava com a pilha de louça, a pilha de trapos
Tudo espalhado com chiado, com cheiro de feijão queimado
Ela ria rodando os olhos, a boca, os ouvidos
Nua girava louca
Girava o choro do menino
O riso da boneca
O chiado da panela
O som alto do carro
A fala falha do gago
O latido da cadela da vizinha
A noite virando dia e a cegueira da loucura
Regendo a sinfonia
Imitando uma buzina
Ria girava nua, buzina
Solta na barranqueira, buzina
Nada mais que me importa, buzina
Hoje é dia de feira, buzina
Domingo pede cachimbo, buzina
O sonho espalhado da costureira recolhido no caminhão
Ria e morria na rua
Um julgava com dó
Outro julgava com nojo
O que julgava chocado, não com a vida atropelada
Com a fragilidade do corpo
O Sol firmava lento
O dia engrenava cedo
Atenção dissipava logo
Ela jazia
Ria de si rainha
Pra qualquer mosca rondando aquele hoje sempre.

Ana Tirana