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segunda-feira, 7 de abril de 2014

Uma Noite de Amor com Marlon Brando - Parte III

Marlon Brando me disse:

EU QUERO TER UMA NOITE DE AMOR COM VOCÊ. 

Um milésimo de segundo se passa e um milhão de pensamentos eu tenho. 

- Seu Marlon Brando, eu fico muito lisonjeado com sua proposta. Mas eu não posso ter uma noite de amor com o senhor. (troca de sorrisos fraternos e constrangidos) Eu tenho que ir, mas nos vemos por aí. 
- Você é muito simpático, garoto. Vai com Deus. 

O lisonjeio foi sincero. A forma bonita de como a proposta foi feita e todo aquele encontro me deixou feliz. Aquilo me afetou de tal forma que, ao mesmo tempo que senti vontade de sair correndo, poderia ter ficado mais tempo conversando com ele. Talvez pela idade, pela grande divergência dos nossos mundos, ou pelo meu gosto comum, senti repulsa. Mas, ainda dentro dessa repulsa, ponderei os fatos e acho que me apaixonei por alguns minutos. Talvez por 5 segundos esitei meus passos adiante com a intenção de voltar. Por momentos imaginei nossa noite de amor e, por outros, questionei os porquês sim e os porquês não. Tanta diferença entre as vidas e as responsabilidades. Tudo tão distante. Mas algo muito em comum. 

Ainda tenho aquele momento como algo muito especial que aconteceu. O desejo de algo que ficará apenas na imaginação. Algo que ficará como uma boa imaginação a se sonhar. Já não acredito mais tanto numa velha frase - "me arrependeria muito mais por aquilo que não fiz."

Não foi uma proposta de um velho babão. Era um homem cheio de desejo e respeito. 

Seu Divino quando disse, quero ter uma noite de amor com você, era o Marlon Brando de carne, osso e desejo. 

segunda-feira, 31 de março de 2014

Uma Noite de Amor com Marlon Brando - Parte II

E me levando, e me levando em direção à escada. E acariciando minha mão e me levando até a escada. E me fazendo elogios e acariciando minha mão, Marlon Brando disse-me coisas tão vagas como ao que vem abaixo. Não exatamente o que se diz, mas perto da atmosfera que se instaurou. Marlon Brando me aconselhava sobre os perigos humanos e suas atitudes carnais.

Marlon Brando,
"Falando assim, tinha-lhe tomado as mãos e afagava-as.
- Olhe, continuou, acariciando-o sempre; não se meta com donzelas, entendeu?... São o diabo! Por dá cá aquela palha fica um homem em apuros! Agora quanto às outras, papo com elas! Não mande nenhum ao vigário, nem lhe doa a cabeça, porque, no fim de contas, nas circunstancias de D. Estela, é até um grande serviço que lhe faz! Meu rico amiguinho, quando uma mulher já passou dos trinta e pilha a jeito um rapazito da sua idade, é como se descobrisse outro em pó! Sabe-lhe a gaitas! Fique então sabendo de que não e só a ela que você faz o obséquio, mas também ao marido: quanto mais escovar-lhe você a mulher, melhor ela ficará de gênio, e por conseguinte melhor será para o pobre homem, coitado! Que tem já bastante com que se aborrecer lá por baixo, com seus negócios, e precisa de um pouco de descanso quando volta do serviço e mete-se em casa! Escove-a, escove-a! Que a porá macia que nem veludo! O que é preciso é muito juizinho, percebe? Não faça outra criançada como a de hoje e continue para adiante, não só com ela, mas com todas as que lhe caírem debaixo da asa! Vá passando! Menos as de casa aberta que isso é perigoso por causa das moléstias; nem tampouco donzelas! Não se meta com a Zulmira! E creia que lhe falo assim porque sou seu amigo, porque o acho simpático, porque o acho bonito!
E acarinhou-o tão vivamente desta vez, que o estudante, fugindo-lhe das mãos, afastou-se com gesto de repugnância e desprezo, enquanto o velho lhe dizia em voz comprimida:
- Olha! Espera! Vem cá! Você é desconfiado!..."

Trecho extraído do romance de Aluísio Azevedo, "O Cortiço".
O senhor é o Botelho e o rapaz Henrique.
Páginas 36/37 da Editora Martin Claret, 2003

segunda-feira, 24 de março de 2014

Uma Noite de Amor Com Marlon Brando

Era mais um dia de correria. 7h acorda pra poder comer, cagar, fumar e banhar. Sem enrolar pra poder sair e dar tempo de tudo.

Segundo minha agenda pouco usada, o primeiro destino era resgatar pertences encontrados na rua depois de terem sido roubados na cara-dura. Não quaisquer pertences: documentos, papéis e... Meu caderno. Caderno onde tudo era registrado quando existia a disponibilidade de registrar algum pensamento. 

Como minha agenda estava apertada, fui apressadamente de encontro com o senhor, que muito gentilmente entrou em contato comigo para alertar sobre a descoberta dos tais pertences. 

Procura daqui, procura de lá pelo imenso Teatro Municipal, tinha apenas o nome Marlon Brando para descobrir onde se encontrava o senhor simpático. 

Ele apareceu com muita gentileza e receptividade. Agradeci aos céus e a ele por tanto amor e generosidade. Ter telefonado para avisar e ainda ser uma pessoa aberta não se encontra muito por aí. Me levou a um quartinho (como que um vestiário dos trabalhadores do local) para pegar minhas coisas. Procuramos e procuramos. Apenas encontramos um livro, que não era meu, destruído como que pisoteado no carnaval. Mas o resto não estava lá. 

Marlon Brando, o senhor de, aparentemente, 50 anos bem vividos, me disse que não sabia exatamente o que tinha encontrado, mas botou o que encontrara no achados-e-perdidos dos Correios da rodoviária ali perto. Não discuti muito, mas não compreendia porquê só o livro havia ficado com ele, já que parecia não ter sido lido, nem aparentar ter despertado o interesse no moço. 

- Muito! Mas muito obrigado por isso. 
- Não se preocupa. 
- Agora é que eu não to mais preocupado! Valeu por me ligar e avisar. Valeu por estar sendo tão legal agora. Não se vê muita gente como o senhor por aí. 
- Que isso. Não se vê muitos garotos como você por aí também. 
- Não sei nem como... Não sei como agradecer. Não sei como te recompensar, Seu Marlon. 
- Preciso de nada não, meu querido. Ta tudo certo. O que fiz foi de coração. Vi sua cara nas fotos. Você é uma pessoa muito bonita. 
- Ah, valeu, Seu Marlon. 
- Recompensa é você conhecer minha casa. Lá tem o Festival do Morango. 
- Claro. Pode ser um ótimo programa. 
(Cordialidades e mais blá blá blá do tipo)
- Pois vá, meu querido, que cê ta com pressa, né? Não quero mais tomar seu tempo. 
- Tenho que ir mesmo. Obrigado por tudo. Vou lá nos Correios ver no que deu. Tenho que resolver umas coisas ainda. Até! :)
- Até. Mas quero que você saiba que você é muito bonito. Muito mesmo. Deixa eu te acompanhar até a escada. 
O que será que vai acontecer? Por que ele me elogia tanto e pega tanto na minha mão? É isso mesmo?  

Essa escada é perfeita pra me encurralarem. Assalto ou proteção? Tão simpático, tão generoso. Ta dando em cima de mim? Ta querendo tirar o que me resta de material, ou to sendo neorótico demais? 

Ou corria, ou andava ao lado dele pé-ante-pé pra acabar com a minha curiosidade. Bastava esperar uns dez metros para ver o que aconteceria. Meu coração dispara e sinto um pouco de medo. Medo e curiosidade.

Segunda na escada...