terça-feira, 22 de abril de 2014
Afectos - Segundo Ensaio
Segundo ensaio. Encontro na casa da Ana Flávia. Pique-esconde pela casa. Reunião em volta da mesa. Retomada dos objetos e suas utilizações fantásticas. Objetivos específicos para cada um. Um convidado inesperado? Os assuntos banais tratados de maneira exacerbada. Situações trágicas tratadas com banalidade. Quem ficará sentado nas cadeiras. Um morto muito louco como novo adereço para decoração.
Convenção internacional dos especialistas em Sereias. Sorteio de tipos. Comprovação da existência palpável destes seres. Conclusão apaixonada X Ceticismo.
A cena do piano e o expectador da TV,
segunda-feira, 21 de abril de 2014
Manchete: Happy Friends Festas
No último domingo (20/04/14), o aniversário de Rafael, 10, termina em tragédia.
A festa para a comemoração do aniversário do garoto estava marcada para as 12h e sua família receberia na casa dos avós 90 convidados. "Preparei com muito carinho a festa do meu filho. Passei mais de um mês organizando e confeccionando as lembrancinhas." Afirma Lúcia, mãe de Rafael, que também contratou pula-pula, piscina de bolinhas, palhaços e várias atrações para entreter os convidados. "Fiz tudo com muito esmero", continua Lúcia.
Em um dos brinquedos contratado pela mãe foi uma bolha gigante, onde uma criança por vez entra e flutua na piscina. Uma das atrações mais disputadas pelos colegas de Rafael. Cada criança estava esperando, em média, 10 minutos para brincar por 2 minutos na bolha.
Após aguardar sua vez com paciência, Catarina, 9, entrou no brinquedo. "Nunca tinha deixado a Catarina entrar nesse tipo de brinquedo. Sempre achei muito perigoso. Mas ela insistiu muito e permiti, pois parecia tão importante pra ela!", relata Marta Vaz, 33, mãe de Catarina.
Segundo o funcionário da empresa de festas infantis, que não quis ser identificado, a menina brincou por apenas quatro segundos. "Foi o tempo de eu ativar o cronômetro e olhar pra menina. Foi tudo muito rápido." relata o funcionário da empresa Happy Friends Festas.
Às 16h22 os convidados da festa do pequeno Rafael, tranquilamente desfrutavam de uma tarde fresca de domingo com amigos e familiares. Mas um barulho de explosão rompe as conversas e brincadeiras. As aproximadas 80 testemunhas deparam-se com uma piscina que vermelha. Instantaneamente a água está completamente tingida por sangue.
No primeiro momento não foi possível identificar o que havia acontecido. Era apenas uma enorme mancha colorada. O caos se instaura. As crianças gritam e os pais desesperados procuram pelos seus filhos. O silêncio transforma-se em puro pânico e correria.
Marta, a mãe da menina Catarina impulsivamente salta na piscina e nada por toda a área em busca da filha. Outros convidados também pulam na piscina, mas apenas pedaços de carne encontram. O funcionário da Happy Friends Festas diz, "A mulher urrava e parecia não entender o que já era obvio. A menininha estava aos pedaços e a mãe abraçava contra o corpo braços e vísceras dela. Foi preciso umas cinco pessoas pra retirá-la da água. Nunca vi nada parecido."
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domingo, 20 de abril de 2014
Domingo é dia de missa
Neste sagrado domingo de páscoa, decido abster-me dos meus impulsos carnais e autorais e de quaisquer influências estéticas/espirituais violentas, malévolas ou subversivas, e devoto meu primeiro post neste blog a ser o bom cristão que me ensinaram a ser, em respeito a todas as hóstias que já caguei e a todas as punhetas que já confessei, citando um dos meus trechos prediletos da Bíblia, e uma belíssima oração/canção.
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quinta-feira, 17 de abril de 2014
Rituais de Sofrimento
Inofensivos programas de entretenimento televisivo poderiam ser considerados rituais de sofrimento?
Consideremos aqui jogos competitivos em que participantes se submetem a TUDO para vencer como rituais de sofrimento. Tais rituais e mecanismos de dominação estão em vários produtos televisivos da indústria cultural brasileira, com especial atenção ao maior deles, o Big Brother Brasil, no ar há treze anos. Também podemos abranger programas e filmes de Hollywood que perpetuam a mesma lógica brutal. Assim como no BBB, o assassino Jigsaw da franquia Jogos Mortais, por exemplo, não almeja a morte/eliminação de suas vítimas: ele quer que elas sobrevivam. Mais que isso, que sobrevivam a qualquer preço.
Para além dos inúmeros recordes acumulados pelo programa Big Brother Brasil, é digno de atenção o espírito que, ao longo de três meses anuais, toma o público. A disputa hipnotiza as cidades como um espectro: sem entender como, sabemos nomes e acontecidos, o programa toma o ar e sufoca. É onipresente; está em todas as mídias e em todas as conversas; suscita contendas nos ônibus e táxis. Mas é na internet que o comprometimento do público toma corpo: sites, grupos de debate, blogs, salas de bate-papo, tuitagens, comunidades virtuais e campanhas inflamadas para a eliminação de fulano ou beltrano proliferam e deixam o rastro do dinheiro, trabalho e tempo oferecidos gratuitamente ao show de horror. Em espaços de reclusão, que pela própria dimensão já inspiram pesquisas acadêmicas, é unânime o desejo do embate feroz entre os aprisionados. Neles, impera o princípio muito bem formulado pelo organizador da rinha: importa muito mais a queda que a salvação.
Não lidamos aqui com um
ritual como outro qualquer, não se trata de uma festa ou do consumo, ambos
cerimoniais oferecidos aos deuses do prazer. Trata-se de algo mais perturbador,
pois o que se vê nos reality shows é a proliferação de rituais de sofrimento.
Quais são as molas que
movem esse lado fake e nem por isso menos real do mundo em que vivemos? Onde
estão as roldanas que dirigem as cordas, quem são as figuras que elas agitam,
como o conjunto se fecha sobre si mesmo sem deixar lacunas?
Apesar de permanecer na
sociedade o debate em torno de um de seus discursos de origem, o mote do
espetáculo da realidade (reality show) e seu maior apelo junto aos telespectadores é a
concorrência, não o voyeurismo. É esse o fundamento que atrai o nosso olhar,
pois é o fundamento de nossa reprodução social.
O princípio violento do
BBB não é oculto, pelo contrário, o próprio programa faz questão de afirmá-lo
constantemente – e funciona inúmeras vezes como propaganda – ao enfatizar o
caráter eliminatório e cruel do jogo. Cada edição impõe a seus participantes
situações mais árduas. Não é um jogo de quem ganha. É um jogo de eliminação.
Esse saber generalizado, no entanto, não impede que uns se submetam e outros
castiguem, nem que aqueles que se submetem também castiguem. Pelo contrário, a
participação é a pedra fundamental do espetáculo. Mais que a aceitação passiva
desse princípio nem um pouco subjacente, o programa conquista o engajamento
ativo, frequentemente maníaco, nessa engrenagem de fazer sofrer.
Big Brother é um jogo cruel, em que o público decide quem sai. Ele dá o poder de o cara que está em casa ir matando pessoas, cortando cabeças. Não é um jogo de quem ganha. Para o cara de casa, é um jogo de quem você elimina.
Big Brother é um jogo cruel, em que o público decide quem sai. Ele dá o poder de o cara que está em casa ir matando pessoas, cortando cabeças. Não é um jogo de quem ganha. Para o cara de casa, é um jogo de quem você elimina.
A dificuldade de se
escrever a respeito da ideologia hoje é que para o juízo bastaria a descrição,
mas essa já não o (co)move. Se uma pessoa se mostra crítica ou mesmo condoída diante
do sofrimento que se avoluma nesse tipo de programa de TV, a ela caberá a pecha
de idiota (ou invejosa!). A dominação se mostra a céu aberto em dia claro, sem
que se renuncie à sua prática. Todo discurso a respeito de justiça, liberdade,
igualdade e até mesmo bondade é descartado com virilidade em nome de uma dura
realidade.
Não são poucas as vezes em que é colocado o problema do sofrimento
ao qual são submetidos os participantes e a resposta é: “Mas foram eles que se
voluntariaram”. Uma das ideias centrais que sustentam o estado de direito é a
da inalienabilidade: não se pode abrir mão da dignidade, por exemplo, mesmo que
se queira. Em tese, nenhum contrato assinado pelos participantes de reality
shows poderia ser válido em qualquer lugar no qual a democracia e os direitos
humanos vigoram. E o problema jurídico posto por essas produções não responde
sequer ao paradoxo dos direitos humanos colocado por Hannah Arendt, segundo a
qual tais direitos só podem ter vigência quando levados a cabo pelos estados
nacionais, ou seja, os apátridas não os têm. Os participantes são cidadãos
brasileiros, alemães, norte-americanos, holandeses, argentinos e um longo etc.
A vida à disposição da produção de entretenimento a que se assiste em reality
shows é um índice mais do que transparente de que vivemos em um estado de
exceção permanente, pulverizado e onipresente.
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