Tenho tentado criar um banco de dados das coisas que afetam os outros atores do AFECTOS - titulus provisóris. A vontade é pegar cada um na espinha, pegar por trás, surpreender. Causar medo, espanto, pânico. Muáááááá. Estraçalhar até virar pó. Daí renascer das cinzas. É aquela velha ideia que diz que as pessoas possuem muitos conteúdos reprimidos e que basta um empurraõzinho no ângulo certo para que muita merda seja liberada.
Matéria publicada em 13 de fevereiro de 2014 na PAMPULHA ALMANAQUE. JESSICA ALMEIDA Pisar no tapete significa estar dentro de cena. Sair do tapete é extrapolar o espaço cênico. Foi fazendo esse jogo, concebido pelo teatrólogo inglês Peter Brook, que o Grupo Liquidificador, de Brasília, concebeu sua versão do conto “A Cartomante”, de Machado de Assis, que faz curta temporada no Galpão Cine Horto, no próximo fim de semana.
Esse exercício de improvisação foi a base para que a montagem incorporasse elementos do flamenco, do melodrama e das culturas pop e cigana. Outra inserção foi a própria figura do autor, que não é personagem no conto original. Inusitadamente interpretado por uma mulher, foi incluído como referência ao conjunto da obra de Machado de Assis, em que é muito forte uma espécie de diálogo com o leitor, como explica o diretor e ator do espetáculo, Fernando Carvalho. “Há várias falas inclusive retiradas de ‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’, um dos romances em que esse jogo com o leitor é mais presente. Essa troca nós transpusemos para a arena em que a peça é apresentada, há muita expressão pelo olhar e brincadeira com o público. Mas não é aquele tipo de interação forçada, constrangedora”, frisa.
Cartaz dedo duro Clássico que muita gente lê durante os anos escolares, “A Cartomante” conta a história do triângulo amoroso entre Vilela e Camilo, dois amigos de infância, e Rita, a esposa de um deles. A condução do texto ora faz o leitor crer em uma coisa, ora em outra, tornando o final ao mesmo tempo surpreendente e previsível. “Nós temos quatro tipos de cartaz de divulgação e um deles gerou polêmica, porque mostra a personagem da Rita levando um tiro do Vilela. Mas para nós isso não estraga o espetáculo, porque o que é legal mesmo é ver o processo, as performances, a construção de cada cena”, Fernando explica.
Além do espetáculo, o grupo traz a BH uma oficina que, de acordo com o diretor, vai mostrar um pouco de seu processo de criação. “Nós vamos tratar um pouco desse processo de improviso específico, desenvolvido pelo Peter Brook. A improvisação está muito em pauta e às vezes as pessoas acham que isso é só fazer qualquer coisa. E também vamos mostrar outros princípios utilizados pra concepção da peça”, afirma.
A Cartomante Com o Grupo Liquidificador, de Brasília Galpão Cine Horto (r. Pitangui, 3613, Horto). De 21 (sexta) a 23 (domingo). Sexta e sábado, às 19h, e domingo, às 19h. Entrada Franca.
O primeiro espetáculo do Grupo Liquidificador é uma adaptação do conto de Machado de Assis criado em 2009 na Universidade de Brasilia. Apresentado também em 2010 no Espaço Cultural da 508 sul, em 2011 no Festival Universitário de Patos de Minas e, enfim com patrocínio do Fundo de Apoio à Cultura, realizou uma circulação regional no ano de 2012.
Esse ano, o espetáculo foi contemplado com Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz, e fará apresentações em Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Goiânia e Brasília. Aguardem serviço das apresentações nesses próximos meses!