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domingo, 12 de abril de 2015

A Figura Central




Por que há necessidade em eleger uma Figura Central dentro de um Grupo de Teatro? É realmente primordial ter uma face para representar o grupo? Como é esta história de que o grupo "é uma tal pessoa"? Se um grupo fosse tal pessoa, haveria sentido chamá-lo de grupo? Estas perguntas iniciais são questões muito caras ao Grupo Liquidificador e debatemos constantemente. O desejo deste texto é desmistificar um pouco o imaginário comum sobre a quase obrigatoriedade da existência da Figura Central e de uma estrutura hierárquica verticalizada na dinâmica de trabalho de grupo, afinal já existem dezenas de dinâmicas de grupos teatrais. Ou mesmo novos modelos de qualquer outro tipo de agrupamento.

Passada a fase de formação, nosso Grupo promove o debate permanente desta questão estrutural há pelo menos três anos, mas ainda assim temos uma imagem distorcida perante os outros. Procuram elencar entre nós uma figura que responda pelo grupo inteiro, como um chefe. Como isto tem sido reincidente, estas linhas são necessárias, não por irritação, mas como esclarecimento maior de nossos processos e formatos horizontalizados. Implantamos radicalmente o conceito de teatro colaborativo, mesmo que isto custe algumas desvantagens, como velocidade dos procedimentos, esta é uma opção consciente que fizemos. Grupo é grupo, não tem uma face, tem uma simbiose de faces. Cada integrante precisa ter total consciência de seu protagonismo dentro do funcionamento do coletivo, uma espécie de unimultiplicidade. Costumamos dizer que somos como um Megazord (robô do programa Power Rangers), cada um com sua potência individual colocada para formação de um corpo gigante mais potente.

Quem é a figura central? Continuemos percorrendo o texto pra procurá-la.

Podemos elocubrar que isto provém de uma série de micro e macro estruturas sociais existentes, talvez venha daí o costume dos trabalhos de escola, grupos capengas, com um ou dois líderes carregando o resto para ganhar nota. Há também a estruturação de família nuclear, papai, mamãe, filhinhos. Os progenitores e sua prole. Outra estrutura comum: a Pátria. Com a figura do líder salvador, do pai (ou mãe) da nação, reproduzindo a família tradicional do campo micro no macro estatal. Estas ultimas noções grupais citadas são quase um mantra repetido no inconsciente inventado por nosso amigo Freud: "Minha pátria, minha mamãezinha querida." "Meu pai chefe governante." No grupo de teatro nós costumamos até a nos chamar por família vez ou outra, mas num novo tipo de formação, não uma família nuclear, acreditando assim estarmos apontando para novos tempos, novas estruturas. Não teremos aqui um Pai Castrador nem mesmo uma Matriarca.

Vivemos numa Fratria. Um conjunto de irmãos mantendo a relação fraternal constante. Queremos e construímos todos os dias esse lugar. Tudo caminha mais devagar, pois decidimos em grupo até a cor da coleira do cavalo do bandido. Mas nos traz uma satisfação imensa no fim das contas, uma satisfação de pertencimento sem igual. O tal do empoderamento. 

Por onde anda a figura central?

Existem legítimos Grupos Teatrais que naturalmente elegem um líder. Ou por admiração intelectual, ou por respeito simbólico e assim por diante. Outros grupos levam no próprio nome o nome do dono. Existem também aqueles grupos com um ou dois integrantes que contratam o restante dos profissionais envolvidos nos espetáculos como "prestadores de serviço". Existem até os que elegem a figura central por assembléias. Nestes grupos de estrutura arcaica, ou tradicional/secular (depende da carga semântica que queira dar), há uma figura como o "dono/chefe" da companhia.

O grupo de figura central eventualmente pode ficar fragilizado quando esta figura não estiver passando por uma boa fase. Ou tiver algum estudo/projeto pessoal pra realizar. Neste caso não existe uma balança nas tarefas, apenas uma espécie de Atlas carregando todo o grande peso do mundo nas costas.

E o diretor não é a figura de destaque dentro de um grupo?

Sobre a direção, há uma tendência de eleger o diretor como o chefe intelectual que talvez no nosso país seja influência do histórico brasileiro dos anos 80/90. Aquele que dá a palavra final, aquele que tem as ideias e faz-se corpo presente nos atores mas de corpo ausente na cena. Ainda por cima existe a mística de que a direção é realizada por um ser iluminado que salvará os atores como se fosse um xamã ou um pastor de rebanho, e trará a resolução de todos os problemas físicos e metafísicos para os anseios do elenco. Neste tipo de colaboração artística que tentamos implantar constantemente no Grupo Liquidificador, a direção é só mais uma função da engrenagem, fazendo a unificação estética das diversas propostas, quase que um coordenador de organograma e de humores, não como um centro de criação, já que o centro neste caso muda de lugar de acordo com o momento da montagem.

Direção é também a arte de espectador. Afinal ele é o primeiro espectador. Um proto-espectador. É comum também pensar a direção como a  necessidade de formatação do ator à uma linguagem de encenação concebida por um indivíduo. Buscamos olhar por um outro viés, a direção tem a função de libertação do ator, para que este não precise ter aquele olhar de fora no momento do jogo. Mas antes de cair pra cena, a encenação é amplamente discutida em conjunto. Nos consideramos mais como um grupo de encenadores. O que para alguns pode soar como fraqueza de decisões ou multiplicidade de gêneros, para nós é justamente o contrário, aqui mora o lugar de potência.

Augusto Boal já dizia:
"Um poeta pode acordar no meio da noite  e escrever um belo poema, basta inspiração. Um pintor pode pintar quadros em minutos ou anos, como se sentir melhor. Mas artistas de artes coletivas não podem convocar expectadores às três da madrugada, alegando que só nesse momento sentiram a inspiração vindo. 
Teatro é arte coletiva. Respeito e disciplina são essenciais!"

Paradoxalmente, são as restrições as que mais fortalecem e permitem a liberdade. Liberdade que é construída somada à liberdade do outro e não como diz aquele ditado meio fascistóide de que "nossa liberdade começa quando termina a do outro". Nossa arte teatral tem a ver com atrito, a produção da diferença a partir do encontro de figuras de mundos e origens díspares. Para nós, sem este movimento de desequilíbrio e equilíbrio não há descoberta, não há invenção. Aliás, este desequilíbrio é o próprio movimento que nos interessa, não o caos, mas a dança com o kaos.

Nos processos artísticos do Liquidificador, ninguém manda na sala de ensaio. A obra vai falar mais alto no fim das contas, e todos estão jogando ali pela obra. Entre os participantes desse tipo de processo torna-se primordial o diálogo infinito, a sedução, o ceder, o endurecer, o abrir, fechar, voltar atrás, desapegar. É um movimento de fricção constante interessante, um complexo exercício brutal de democracia com todos seus percalços. Prevalecendo a potência da obra/processo.

Mesmo se a direção artística do grupo estivesse a cargo das decisões de uma pessoa só (o que não é o nosso caso), a gestão continuaria numa dinâmica compartilhada. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. O grupo não é, necessariamente, do diretor. Façamos sempre esta reflexão relativizada para cada grupo, antes de sair tomando conclusões pré-concebidas a procura da figura central dentro de grupos mais horizontalizados, pois nestes casos ela não existe e não há relativização para isso. 

Essa dinâmica é relevante que seja amplamente divulgada, pois acredito não sirva apenas para grupos teatrais. O micro também cabe em grandes escalas. Este modelo numa empresa qualquer pode tornar seus empreendedores conscientes de seu processo produtivo do início ao fim. Num estado democrático, pode gerar cidadãos conscientes de suas próprias responsabilidades e direitos, sem precisar dizer que a culpa é da mãe toda vez que se indignar. Porque o pai e a mãe estariam mortos neste caso. Por fim, diretor não é o salvador da patria nem o psicólogo dos atores, todos integrantes são responsabilizados conscientemente por todas as questões. Um teatro de autoria radicalmente coletiva.

domingo, 1 de junho de 2014

Um singela e pequena homenagem.de: alguém de fora para: dentro.

Me lembro, que a mais ou menos 4 anos atrás, eu estava caminhando pelo departamento de artes cênicas, da UnB, e ali perto da mesa do porteiro um bocado de flyers de um espetáculo estavam em um montinho. "A Cartomante" no espaço cultural Renato Russo 508 sul, do Grupo Liquidificador. Achei tão curioso, um grupo chamado "liquidificador", fiquei com muita vontade de assistir, não me lembro exatamente a razão de na época não ter ido assistir ao espetáculo, mas me lembro que fiquei com isso na cabeça, eu sempre tive vontade de ter um grupo de teatro, e sei lá, fiquei pensando nesse tal de liquidificador.... Enfim, o tempo passa, e olha só por onde meu caminho foi cruzar... Hoje, estou aqui no Rio de Janeiro, fazendo a iluminação do próprio "A Cartomante" do mesmo Grupo Liquidificador. E aqui, hoje, eu quero escrever sobre eles.

O Grupo Liquidificador hoje em dia tem em sua formação, Fernando Carvalho, Iza Cavanelas, Karinne Ribeiro, Kael Studart e Fernanda Alpino. Esses cinco desbravadores  e misturadores da vitamina punk pop, que brigam, discordam, se xingam, se amam, se batem, são amigos um dia, e se odeiam no outro, mas mais do que tudo são felizes ( como eles mesmo costumam dizer "Estamos felizes"). Mas é no olhar de um pro outro que você consegue ver aquela faísca, aquela coisa, que as pessoas tanto desejam ter, eles tem isso. Eles são, verdadeiramente, um grupo. Ontem em uma discussão calorosa em um bar em Ipanema, eu me senti plena, e muito feliz de poder ver essas cinco pessoas discutindo sobre seu passado, vendo os seus erros, e se abrindo plenamente para o futuro. Em uma brincadeira, disse que não sou e não quero fazer parte do grupo, disse isso porque eles cinco são O grupo, e não precisa de mais ninguém, de mais nada pra afirmar isso. Eu sou a Iluminadora deles, com o maior prazer, e o maior orgulho do mundo, digo isso de boca cheia.
 Tenho uma admiração absoluta em cada um daqui, e todo dia aprendo algo novo, e todo dia vejo um novo caminho, porque eles me ensinam.
Iza, com o seu jeito meio mandona, é a grande mãe dos projetos, sabe de tudo, de todas as horas, de quando, de como e de onde as coisas vão acontecer, seu amor por isso é tão claro que tudo sempre acaba saindo como planejado.
Fernando, meio timido, meio calado. É um pai, cuida dos outros como se fossem seus tesouros. É possível ver em seu olhar cuidadoso e carinhoso com cada um, e como isso é importante pra ele. Também é o moço do dinheiro, tem tudo muito bem calculado, bem planejado e bem organizado.
Kael, espivitado, falador, elétrico. Pula pula pula. Alegria e raiva em uma pessoa só, comunicólogo por natureza, faz as coisas acontecerem! Desde o papel escolhido, a tinta que vai ser impressa, até o entregar. Kael é o filho mais novo, esperto, elétrico, meio estabanado, mais lindo, lindo demais.
Karinne, é resposta rápida, se contradiz em quase tudo mas é mente e corpo no aqui e agora, boêmiaXburocracia, eterna crise. Tem um pensamento incrível sobre o todo, uma insegurança que deixa ela mais segura. É a filha do meio, daquele jeito meio solitário,mais carente, e que traz uma força necessária!
Fernanda, é sanidade, acho que uma das mais sérias, tem uma propriedade de falar sobre as coisas, uma certeza da vida. Segura as pontas, traduz e seduz com seu olhar observador, atento a tudo. A Filha mais velha, que as vezes parece criança, mas logo arruma a postura, e arruma os irmãos para uma boa apresentação.
Isso de família é só uma brincadeira, aqui na verdade, em todo o momento eles trocam de lugar, são pais, mães e irmãos todo o tempo. Importante mesmo é que são uma familia, parece que se conhecem a milênios, parece que conhecem cada pedaço um do outro. Existe amor entre eles, existe energia entre eles, existe entrega entre eles. E em tudo deles isso transparece, são incrivelmente organizados, incrivelmente engajados e cada vez mais conscientes de tudo que eles fazem.

Isso tudo aqui é só pra dizer, queridos do Liquidificador, que é mais do que um prazer trabalhar com vocês, é uma honra verdadeira. E para dizer mais ainda que o nome de vocês já está fazendo história por aí, que vocês são pessoas importantes para a nova cultura brasilienses, é uma coisa tão louca e tão boa ver tudo isso de perto.
Isso é mais do que tudo palavras de agradecimento, obrigada por confiar a luz de vocês em mim, obrigada por me ensinarem tanto, obrigada por serem Liquidificador: Uma bela mistura de tudo, que dá tão absurdamente certo.

Vida longa a vocês! Vida longa as discussões calorososas! Vida longa a nós!


Estamos, estávamos e estaremos Felizes.



Merda!