domingo, 10 de junho de 2012

Quadra do Beira-Mar


Como um bom moleque da periferia, passei boa fase da minha meninice na rua, mais precisamente jogando bola na “quadra do Beira-Mar”. Fugia diariamente dos deveres escolares para uma partida de “dez ou dois” e pedia quinta próxima feliz da vida na expectativa de passar a noite sem apanhar de ninguém. Nem dos moleques mais velhos de rua, nem da minha mãe, em casa.

A quadra ficava numa praça em frente ao prédio residencial Beira-Mar, que tinha uma igreja evangélica no subsolo. Tirando o culto e uma padaria solitária, tudo era rodeado por botecos, sem contar as drogas que eram vendidas como balinhas (vide mapa). Eram bares para todos os gostos. Maiores, menores, cheios, vazios, sujos, não tão sujos, alguns com sinuca, outros truco, e uma variedade inconcebível de artifícios alcoólicos.  Ali eu formava o meu caráter diariamente.


O lugar era tomado por bêbados, que mesmo com esposas em casa, eram casados com a boemia. Velhos cansados, barrigudos com artérias entupidas e prazo de validade estourado, não raro alcoólatras. Entre eles, meu pai. Todo dia papai fazia hora extra nos bares da praça. Enquanto eu imitava o Romário na pelada, minha verdadeira referência masculina estava ali do lado embriagando-se com os amigos. Eu queria ser um deles, e era só questão de tempo. O ciclo natural da vida era um dia acabar estacionando naqueles balcões e dali não sair jamais. Não era uma escolha, mas sim uma realidade.

Meu pai transitava por várias pocilgas da praça, mas sua preferida era a do Zé Mineiro. Conterrâneos, cruzeirenses e parceiros de pescarias, era ali que o velho se sentia em casa, talvez até mais do que lá em casa. No intervalo da peleja, eu ia falar com ele e pegar água pra galera. E do convívio diário vem a familiaridade.

Em um lugar em que moleques eram desprezados pelos bêbados, eu era o filho do homem! Meu pai era um bancário burocrata que dava crédito para aquele bando de comerciantes alcoolizados. O respeito que os encachaçados tinham por ele sobrava um pouco para mim. Eu entrava no Zé Mineiro sozinho e saia com uma coca-cola sem pagar! Eu era foda!

Tentava usar isso ao meu favor para me impor sobre os moleques e me aproximar, em vão, das meninas do Beira-Mar. Eram pirralhas que desciam em cardume do prédio e ficavam nos olhando de longe. Eu sempre retribuia o olhar com altas doses de platonismo. Na minha mente elas estavam apenas de calcinha, ou nuas, e tinham o corpo da Emanuelle, rainha do soft porn, deusa dos cabelos crespos que me fazia dormir mais tarde no final de semana e me levava para o mundo mágico e emocionante da masturbação pré-internet. Minha timidez nunca me permitiu passar daquela troca de olhares.

A praça mudava um pouco no domingo à noite, quando os bêbados passavam com suas esposas e filhos em busca de redenção no culto evangélico do Beira-Mar ou na missa da paróquia São José, que ficava mais longe. Era sagrado e profano no mesmo olhar, na mesma praça. Os mais apegados ainda saudavam de longe os pagãos que não largavam o bar nem para pedir perdão.

Pausa para o Rock

O som rolava sem parar na praça com aquela classe típica da periferia que ditou os anos 90. Muito pagode, funk, axé e sertanejo. Leandro e Leonardo eram reis e Rap Brasil era o funk “bom” do cara que só queria ser feliz. Tinha uns três moleques com apelido de Molejo. Só Pra Contrariar era obrigatório. Gostava da ideia de me afogar num copo de cerveja, para encontrar nela uma solução. E nesse contexto musical unânime, seguia eu convencido pela massa.

Sei que a bíblia já salvou muita gente, mas o que me redimiu foi O Descobrimento do Brasil. Ganhei esse CD de uma prima fã de Legião Urbana (não de rock, só de Legião). Ouvi uma vez, achei uma merda. Outra vez, tinha algo ali. Quando me dei conta, o CD tocava repetidamente. Em alguns dias já sabia cantar “Perfeição” e “Vamos Fazer um Filme” sem precisar do encarte.

Como um iniciante se preze, decorei “Faroeste Cabloco” em dois dias, mesmo sem saber o que era “roconha”. “Ascendente em escorpião” desconheço o significado até hoje. Adorava a parte do “general de dez estrelas, que fica atrás da mesa com o cú na mão”. Depois veio Titãs, Paralamas, Beatles, e por aí foi. Não precisa dizer que aquela porra toda de antes não fazia mais sentido nenhum.

Voltando para o bar

O tempo passava e a dinâmica da praça era a mesma, mas não pra mim. Talvez as drogas tivessem aumentado, pois de vez em quando tínhamos que jogar bola sob a vigilância de vários policiais e, do nada, um conhecido traficante sumia. Eu não me importava, até porque o meu jogo estava cada vez mais parecido com o do Romário. O problema é que o ensino médio estava chegando e minha mãe não acreditava mais nas minhas desculpas para ficar na rua a noite toda.

Um dia cheguei em casa e vi uma camisa oficial do cruzeiro na sala. Agradeci meu pai, feliz da vida, e descobri que a jóia não era minha, mas um presente de aniversário para o Zé Mineiro. Argumentei que ele não ligava pra isso, pois era um cara simples e camarada. A camisa podia ficar pra mim. Foi quando meu pai informou que o Zé estava em internado no hospital com cirrose crônica. Cirrose? Que clichê! O dono do bar que morre de cirrose é o pior clichê da vida! Pois aconteceu. Zé Mineiro morreu alguns dias depois e, no auge da tristeza do meu pai, a única coisa que consegui falar pra ele foi: “Pai, você chegou a dar aquela camisa do Cruzeiro pro Zé?”.



Guilherme Rosa é um bancário burocrata como o pai, mas sem um pingo do respeito que o velho tinha. 



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