quarta-feira, 6 de junho de 2012

À brisa do docinho da Ca Ipora

À brisa do docinho da Ca Ipora
Ruan J.[1]
Chegou Piroli. Chegava de manhã.
Fernanda andava por lá, tinha chegado na noite anterior, sua fama a antecedeu por mais de mês.
Aqui narro de seu amigo Vitório que tantas fez e tanto quis que acabou retornando. Chamava assim com um nome que refuta sua condição, nunca ganhou nada e muito pestanejou querendo ganhar tudo que se fez carta branca no mundo... A ele tudo era permitido, arreganhava-se com licença poética, dava de ombros à existência do alto da sua condição de café-com-leite. E sempre faltou paciência para tudo enquanto tinha de lidar.
Primeiro foi garçom. Antes mesmo de ser gente foi garçom, decidiu que era gente por porque era algo, era garçom... Como garçom entendeu a lógica do poder que sua classe tinha. A classe dos garçons tem um poder imenso, isso Vitório descobriu. Servia a toda Capim Branco, aquela gente despeitada desejosa de ser “grandes-bostas”, e quando ouvia impropério, grossura, maltratamento, ou mesmo quando ficava cansado do tédio da vida em quotidiano, começava a dar provas de seu poder, desferindo pequenos golpes de seu poder nos humildes mortais. Enfiava o dedo no cu e mexia com o mesmo dedo o suco escumado, aproveitava da escuma e lá camuflava altas cusparadas. E misturava catarro no molho madeira, cera de ouvido e pus de espinha na manteiga derretida, deitava na feijoada a casca das feridas... Três semanas e não deu mais, seu poder de garçom também o saturou, como saturou, de um dia para outro, o óleo da pelota, e optou por vagar por aí. E foi vagando que chegou onde estava quando chegou Fernanda como visita.
Morava com Pirole, seu amigo, numa tapera grande. Pirole chegava do trabalho e Vitório, do seu lugar, esperava ansioso para ver seu amigo destilar simpatia. E pela manhã inteira Pirole tratou bem Fernanda que recebeu a hospitalidade orgulhosa como sempre, achando que nada vinha de graça. Por isso logo deu pra Pirole na cozinha, enquanto da sala Vitório repassava suas paixões antigas, falava só, por horas prescindia de interlocutor:
-  Saio de um relacionamento pro outro, gatta, sou assim desde menino... (pausa longa, enquanto bebe campari velho que tava na geladeira) Não vou ouvir Bethania hoje, viu, me faz lembrar do Alex e o Alex não merece que se lembre dele, bicha louca! Ele e eu tinha (desconcordância deliberada) sangue no olho, quando a gente brigava a gente quebrava o apartamento dele inteiro. Com Elvis que eu não me encrespava , fazia eu jeito de piti e ele me jogava porta afora. Ele tinha um cuidaaado com as coisas dele, um asseio! mesmo assim deu pra quebrar uns bibolôs vei-feio que a mãe dele deu pra enfeitar a casinha dele, o espacinho dele... Limpinho mas tinha tara em comer menino drogado... Quem não suja a pele suja a alma! Sua alma sua palma, to esperando o filho dele crescer mais um pouco pra eu poder comer...
Sairam, por fim, Vitório, Fernanda e Piroli... Doidinho esse Piroli, muito controlado, mas do tipo que no meio da loucura sobrevive a todos os loucos. Tem um saco mais fundo, do tipo que nada é tão agudo que atravesse sua grossa casca... Foram parar num monumento pequeno de longe grande de perto, e alto de subir nele por uma escada íngrime de concreto. Lá em cima tinha um lugar pequenino de se estar, algo como uma varandinha cercada de guarda-corpo, em que jazia sob um semi-pilar a tocha de um fogo que nunca apaga, faz pra mais de cinquenta anos e tá lá a mesma chama, em honra aos audazes bandeirolas, sertanejos e putas de dois tostões...
Enquanto os outros dois ficaram embaixo, na lascívia, Vitório subiu lá no alto, galgando os degraus com gana de quem vai ao encontro do ancião preceptor. Ficou pertinho do fogo, bêbado, vendo crepitar as labaredas com os olhos inundados. Naquela noite tomou só uma garrafa de vermute, ainda bebia as bebidas mesmas do tempo de menino, e bebia tudo, quanto mais se te oferecessem de graça. Naquela noite deu a língua à Fernanda e ela, com esmero de uma mãe sem filho, posicionou o papelzinho como a mãe que procura na parede o ponto mais justo para o retrato do filho que já não tem. Olhando para o fogo, Vitório viu no fogo o que viu quando viu o fogo pela primeira vez. Tomado de êxtase afastou o corpo até o guarda-corpo, dispensou o corpo ao ar e deixou o corpo cair, queda livre... doze metros depois e seu corpo no chão...
Caminhou depois, por um túnel sem luz no fim, mas andou tanto com medo do escuro que chegou no purgatório. Lá uma moça alta e poliglota o recebeu com respeito, mandou entrar na fila e esperar um bocado. Vitório acedeu acendendo um cigarro, mas foi advertido e teve de apagar certo de que o purgatório era uma instituição de sequestro.
- Onde posso ser o que eu sou? é no inferno? então toca pra lá então!
Depois descobriu que só havia purgatório, que nenhuma alma precisava de castigo eterno, nem merecia descanso perene, ficavam ali purgando, dando explicação e esperando Godot. A sala de espera do purgatório era o foyer de um grande teatro. Enquanto Vitório esperava acontecia um vèrnisságe, serviam coisas crocantes e bom vinho e toda a gente, com cachecóis no pescoço, falava de arte. Vitório foi depois reclamar, disse que aquilo feria o veto ao castigo eterno. Para não contrariar a maioria, nem tentar refutar observação tão lógica, o guarda fez Vitório entrar. Lá não encontrou um auditório, mas uma sala de depoimento de quatro metros quadrados, quatro milhões e quatrocentos e quarenta e quatro mil quatrocentos e quarenta e quatro metros quadrados menor que o foyer. Lá dentro dividia o espaço mínimo um velho que escrevia na máquina na velocidade da fala e um jovem que tinha respondida toda pergunta que perguntasse.
Vitório prático disse ao velho que anotasse e ao jovem que não perguntasse, que diria o que na teia desse e que com certeza toda dúvida sem pergunta seria esclarecida:
- Eu amei demais. Pergunta faço eu: porque amei tanto e tão a cabo e tão a fundo? Não respondam. Tudo isso me trouxe aqui, uma vontade decadente, um desejo sem eco e uma vontade boba de errar os caminhos. Quando era menino amei baixo, gostava de uma pequena esquisita que comia terra com a boca desenhada de batom, amei-a tanto que passava as quatro horas na escola sugando a madeira do lápis até que acabava o grafite. Por ela tomei uma garrafa de biotônico, depois enveredei nos vidros de perfume, rasguei a roupa na rua no meio de um desvario, durmi na sarjeta e deixei a escola, fiz uma mala pequena e fui ver outros lugares. Aí me apaixonei por um cara aí, com idade pra ser meu pai. Ele me tratou como um deus trata um mortal, como um mancebo trata outro mais mancebo, assim se regozijando por ter o destino de um ser sob a égide de seu poder. Mandava eu fazer as posições mais esquisitas, me obrigava a deitar sobre bifes mal passados escorrendo sangue, chupar caco de vidro e me deitar com as criações. Me cansei não por sofrimento, pra mim não há sofrimento que chegue, o duro era aturar o tédio... a excentricidade do cara também me cansou. Aí fui ter com uma puta velha, que conheci na rua, porque depois é sempre a rua. Ela eu não amei, mas o cheiro azedo da xota dela lembrava a minha mãe. Me lembro que ficava por horas com cabeça entre as pernas dela, recordando, pela força que o olfato tem em matéria de memória, o dia que a minha mãe foi embora deixando meu pai bêbado por dias e por dias o cheiro azedo da sua xota no ar. Um dia a puta velha saiu pra comprar pão e não voltou, me desesperei uma semana depois quando o cheiro azedo da xota dela já não podia ser sentido em nenhum canto da casa. Um tempo e vieram os sobrinhos que eu não sabia que ela tinha e demoliram a casa comigo dentro, eu saí do terreno baldio quando o novo dono apareceu e começou a erguer paredes que foram me enclausurando. Quando começaram a moldar a janela, fugi por ela pra poder ganhar o mundo travez. Depois foi o Elvis, depois o Alex... Só então Maricélia e Victor Hugo, Maricélia era boazinha, tão boazinha que eu tinha vontade de bater nela, ela me mostrou o quanto gostava de apanhar e eu me apaixonei. Mas o Victor já estava na minha vida, fiquei comendo os dois, apanhando dos dois, os dois tendo de mim tudo que queriam ter. Mas se conheceram um dia e, como na brincadeira da gata parida, fui espirrado pra fora de todo amor-bagunça do mundo... Eu amei demais, amei a viúva de um sado-masoquista e até sua perversão me cansou, me cansei do gosto do salto da botina dela na minha boca. Amei demais e me cansei até da garçonete, que vestia avental floral e me fez engordar com a sustança da sua comida remosa. Fiz por aí dois amigos, são os dois que estavam comigo. Faz meia hora que caí e ela tá lá com a pica dele na boca, os dois sem se darem conta do meu corpo estirado. E amei mais e mais além, me cansei da vida, mas jamais do sentimento, deixei as coisas práticas da vida pra lidar com o sentimento. Sinto tanto que deixei o mundo. Sinto tanto e receio deixar vocês. Posso ir?
Saiu e contemplou o purgatório inteiro com suas ruas sem saídas, seus horizontes entrecortados de almas vadias, que caminhavam vindo por toda parte. O purgatório inteiro ilhado de almas vadias! e não parava de chegar mais. Era tanta gente contando seus abortos, seus cancros moles e estelionatos, que Vitório decidiu fazer o caminho contrário, foi se esgueirando entre as pessoas, tentando voltar pra casa ou pelo menos encontrar o caminho pro inferno. Não era permitido voltar, mas Vitório tinha carta-branca, e tanto caminhou que logo encontrou a viela que, quebrando a terceira à esquerda, dava acesso pro seu corpo. Chegou, enfim, no seio de si, acordou, sacudiu a roupa, saiu.(parágrafo)
Ainda hoje vai vagabundo por aí, procurando sentido enquanto procura sentir saudade. 


[1] Ruan J. heterônimo de Sávio J., que é heterônimo de Caio Higino, o caio no mundo, pseudônimo daquele que prefere não se identificar, não por medo, mas para que o uso de pseudônimo pelos heterônimos não perca seu sentido. Ruan J. tem quase trinta, mas parece ter mais trinta. Gosta de poltrona modernista, para ver, nunca para sentar, e gosta de televisão... Perde horas vendo catálogos e almanaque de décadas idas. Certo dia ficou, por tempo indeterminado, vendo uma foto de Grande Otelo em que ele fugia de um teatro de revista em chamas com uma vedete nos braços. Adora Baby Consuelo, telenovela, sertanejo raiz e filme de tragédia urbana baseado em fatos reais. Porém seu filme favorito é Casablanca, por catarse simplesmente. É que Ruan J. sofre de amor indiferente e de quando em vez tira fotografia, mas nunca teve câmera própria. Sempre ri assistindo Cidadão Kane, chora vendo O Astro e rói as unhas vendo o futebol. Veio de minas é atleticano roxo, anda de bicicleta, não dirige por déficit de atenção... Ama sem recíproca uma moça de Minas mesmo, uma moça de sotaque forte e as palavras muito bem pronunciadas, que estuda literatura dramática e gosta de cantora sapatão da nova MPB.      
     



Rogério Luiz é mineiro, ator. Escreve. Fala textos sem parar, é verborrágico. Meio louco, meio moribundo. Desperta medos nas criancinhas de Unaí. É o amorzão "paciente" da Karine Ribeiro.



2 comentários:

  1. Eu gosto muito, você acredita e eu acredito em você. Topa?

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  2. Eu vejo o mineirês nas palavras deste conto! Muito bom Roger!!

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