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quarta-feira, 19 de abril de 2017

O que é Chullachaqui?


O chullachaqui é um ser da floresta que toma a forma corporal de uma pessoa próxima de quem o vê. O chullachaqui é um oco da pessoa. Dizem que cada um de nós tem um correspondente igual a nós caminhando pelo mundo, só que oco. 
Ao encontrar com um chullachaqui, só se sabe pelos pés que este não é realmente a pessoa que conhecemos. Este ser fantástico produz a imagem e semelhança de pessoas queridas, mas um dos seus pés é uma pata de bicho, de galo, de tartaruga, de bode, de javali, de qualquer criatura animal não-humana.

Os chullachaquis podem também estar nas fotos, nos avatares digitais, nos perfis de redes sociais e em qualquer lugar onde o oco de humanos se proliferem. Caso a pessoa seja enganada pelo chullachaqui ela se perderá pra sempre na floresta ou nos imensos labirintos de Bits que as redes infinitas nos proporcionam. É preciso ter cuidado!

Então lembre-se da próxima vez que for interagir em ambientes digitais com muitos ocos por bit quadrado, peça sempre uma foto dos pés da pessoa do outro lado da tela. O chullachaqui tem apenas um pé humano.

Carta do chullachaqui na TecnoMagia

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Matéria visual da matéria orgânica!







Imagina a sua mão em uma grande tela. É a sua mão, carne, pele, sangue, unhas. É a sua mão, tão essencial, que manipula matéria. Garfo, faca, copo, lápis, teclado do celular, serve o café, pega o guardanapo, escova de dente, apoia no chão pra levantar, abre a carteira, segura o tablet, toca você mesma e toca alguém, o corpo de alguém, peito, barriga, bunda, rosto, pé, vagina, clitóris, pênis, pescoço, cabelo, boca. A sua mão. Mas agora ela tá ali, em uma tela. Representada. É a representação da sua mão, parte tão essencial, tão presente em tudo, tudo, tudo que você faz na sua vida. Agora ela tá ali. Só a imagem. Você prefere ver ela se mexendo ou imóvel? Isso importa?

Imagina o seu pé em uma pequena tela. É o seu pé, carne, pele, sangue, unhas. É o seu pé, tão essencial, que manipula matéria. Anda, corre, empurra o chão, empurra o tapete, pisa na grama, encosta na porta, sobe a escada, esfrega no outro pé pra lavar, bate no pé da mesa (AI!), pula obstáculos, empurra a terra pra tapar o buraco. O seu pé. Mas agora ele tá ali, em uma tela. Representado. É a representação do seu pé, parte tão essencial, tão presente em tanta coisa que você faz na sua vida. Agora ele tá ali. Só a imagem. Você prefere ele se mexendo ou imóvel? Isso te importa?

Calma aí, mas é o outro que tá controlando? Não é meu corpo pele/osso/cérebro. Eles estão sendo manipulados por alguém? Alguém filmou tudo enquanto eu não via (ou via? será que foi eu?) de vários ângulos e de várias distâncias. Muito perto! Olha as pequenas rugas bem de perto formando ondas de areia, obstáculos tortuosos e linhas paralelas. Muito longe! A mão é um inseto com cinco patas.

Eles perguntam, eles me perguntam se agora eu percebo a diferença. Eles dizem que não é a minha mão ou meu pé, é representação. O outro criou tudo pra mim, pra eu me ver e me sentir completa. "Te representa sim! É representação! É símbolo, linguagem e comunicação! Matéria visual da matéria orgânica!"

Mas eu acho que sou eu mesma. É que tudo isso é só uma expansão.


É meu corpo alargado. Filmaram meu pé, postaram no facebook. Filmaram minha mão, tá lá. Tá tudo sendo exposto pra todos manipularem com os olhos. O meu corpo vive agora constituído de duas matérias que se relacionam. A carne e a imaterialidade dos likes e visualizações. Temos aqui outra continuidade. O celular é minha terceira mão. A câmera é meu terceiro olho. Minha página no facebook é meu território, a ponta dos dedos das minhas mãos no teclado do computador também é meu pé, eu caminho. Eu olho e me identifico.

O oco, assim como a carne, também pulsa.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

                            DIANTE DAS DEFINIÇÕES, AS CIGARRAS NÃO PARAM!


Quem sou eu, se me vejo como reflexo no outro, mas sei que o outro não sou eu...

                                                                      E se o outro for meu oco disfarçado? 

Porque temos esta necessidade abrupta de nos definir se estou em processo de definição?

                                                                     E quem me define?

E de onde vem a definição sobre mim?
                                                              De mim? 
                                                              Do outro? 
                                                              Do oco? 

                                                 -  Onde sou oco/onde sou eu/e onde é o outro? 

Estes questionamentos me fazem pensar sobre o processo de encontro.
Essa tal arte do encontro que muitos estão ensimesmados em encontrar respostas.


E...

Este encontro é Comigo? Com o outro? Ou com o oco?

-Okay! Confesso, não sei!

Mesmo em devaneio o que apetece aos meus olhares, dizeres e prazeres não são as definições e muito menos a tais respostas, mas sim, a BuScA!

A Busca?
           Encontro, talvez?
De quê?

- Novamente, não sei! 

Só sei que o rito me comove.     O mito me instiga.     O sagrado me mobiliza.

As formas são possivelmente sugeridas, mutáveis e até dobráveis. 

Não sei quem fui, o que fomos e sei lá, se seremos.
Não sei se sedimentarei algo ou o que será do algo que não compreendo...
As necessidades de se estar em um lugar definido e estável não é  Real...

O que é  Real? 
             O que é  palpável?  
E quem define o palpável?  
             A matéria?

PenSo, loGo mE siNto toRta paRa o OCO.

Ele sim me parece mais real, por muitas vezes...

- Mas o Oco? (Semblante de espanto) 


Resultado de imagem

Pasmem! A partir dele me sinto mais confortável e consigo vislumbrar tudo mais liberto dentro de uma linguagem metafísica que este meu corpo não conhece.
- Evito definições e isto me provoca o questionamento.
Consigo pressentir que mesmo sendo oco
                                                                  absorvo 
                                                                                ideias, sensações...
Efemeridades muito mais autênticas que este corpo cru, bem definido e condicionado não se esmera por não se encontrar preparado.

O oco seria o meu lado disforme. O avesso de mim...

- Avesso de quem, se não sei quem sou?

 A ideia de pensar sobre, me envolve. Porém, é um risco contraditório "pensar", porque imediatamente o pensamento se prontifica a definir. E a definição nos categoriza a uma falange pueril do que somos nós: ocos com pés a mostra para novas elucubrações...

Élia Cavalcante