quinta-feira, 4 de julho de 2013

É tempo de ebulição...

De repente o mundo que nos cerca é outro, mas ainda continua o mesmo em suas formas geométricas de manipulação e manifestação. É uma faca de dois fios apontada para o nosso peito argênteo.
Foi uma semana. E não sabia que uma semana era tanto assim. Eu fico feliz por você que pensa, mais importante que ir para ruas dar um berro de desespero. Enquanto pensarmos, existiremos. Condição unidirecional. Me sinto gradativamente envolvida, à minha maneira!

No dia 17 de junho as redes sociais falavam muito alto e em tom conclamatório: Vamos para as ruas... E agora a música do Rappa que era referenciada à Copa, continua falando do gigante, mas de outra substância. Feita de sangue e de ideologia.

Neste dia, tive a sensação de tudo estar suspenso. Como quando você junta as mãos curvadas e enche d'água. Este momento foi sentimento propulsor. Uma atmosfera neblinando... fumaçando... era o silêncio do mundo. Barulho para poucos. Os barulhos concentrados em alguns. Por mais alto que o Chico cantasse no meu quarto, não consegui sonorizar. A noite caiu. Não sei como foi este quando em mim. Mas o sol se foi, e para muito longe.

No dia 18, todos os meus amigos homossexuais estavam protestando a "institucionalização da cura gay", todos tristes e eu também, pois duas pessoas que eu conheço morreram. Com a notícia da morte, passa a sensação de neblinar e vem a de tristeza. Melancolia. Nostalgia pelo que vivemos, não vivemos, e nunca mais poderemos viver. O tchau é eterno. Neste dia também alguns postaram depoimentos nas suas linhas do tempo. Descrevendo e opinando sobre o ocorrido na Esplanada no dia anterior. E tudo se misturava de uma forma tão estranha que ainda não foi diluído dentro das artérias entupidas de tabaco.

O dia estava marcado! Quinta-feira, dia 20, todos na Esplanada. E quando digo todos me refiro à uma expectativa de 50 mil pessoas para a Esplanada e 100 mil para a praça da Sé (SP).

E tudo foi tão impressionantemente rápido que me causou estranheza. Mas como alguns sabem, as vezes eu sou devagar. Não sofri influência da mídia, isso me tornou mais lenta ainda. Não sofri porque minha televisão, vítima de uma mudança repentina, está sobre o sofá, esperando a morte chegar. Antes ela do que eu!

Engraçadamente, eu mesma questiono esta isenção. Estou me comunicando diariamente com pessoas que pregam seus olhinhos nos olhos dos seus inimigos e falam, isso é mentira! A absorção é inevitável, pois como o mestre Fairclough afirmou, o discurso como uma praxis social, relida e não isenta da posição intertextual do sujeito. 'Discurso e mudança social' me fez entender tantas coisas que não são ditas por mim. Não quero me tornar essa pessoa que escuta algo e enfia o pé no cú da mentira, jogando pra longe o que afirmam ser verídico, mas guardo às rondas do meu coração. 


Dia 20, tínhamos que trabalhar na reunião, na exata hora marcada. No calor das emoções, o trabalho foi interrompido para a operação Esplanada. Fui terminantemente contra simplesmente por não ir a lugares cavernais políticos. Eu tenho motivos sólidos e volúveis.

Eu perdi o meu pai pra Revolução e, nela, não me perderei de mim. Aqui dentro tem ebulição, embora não pareça, verve... O momento me traz o descobrimento. O constante caminho de descobrir quem eu sou. Faço um suco crítico da minha arrogância e tempero com ironia genética. A genética me pariu. Eu sou revolucionária fantasiada de salto alto verde água. Eu sou o impossível exercício do silêncio interno.
Não me venha dizer agressivamente que eu não posso ser assim, assado, que isso te exalta, entristece. Porque essa postura totalitarista te iguala aos seus inimigos. Mas você é vítima do sistema. O sistema que lhe pariu...


Depois dessas linhas, o estômago começa a desembrulhar de você que eu amo. Eu entro no ônibus, passo pelo DECK, lembro dele e descarrego essas linhas nesse celular. Poetizo bregamente as pétalas rasgadas.
A minha vida vai bem, obrigada. Em nada tudo isso me desfavorece. Apenas me ocorre o filme da minha vida e me faz recolher. O único que eu preciso é respeito. Exatamente o mesmo que você exige nas suas manifestações. Não me diga o que eu devo fazer, como eu devo agir, porque tudo que você me diz é o que você precisa fazer ou agir. Se a sua consciência te pede, seja fiel a ela.
Isso é verdade. A minha...

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