quarta-feira, 20 de junho de 2012

Liquidificados... Ricardo Rosa e Kael Studart

Até o final da semana passada, este blog estava repleto de postagens de queridos convidados. Terça passada, que é meu dia de postar, meu amigo Ricardo Rosa fez um conto para inserir aqui. Mas em crises comuns de autor, ele não tinha um final por conflitos morais. Ou algo do tipo. Ele me explicou isso eu não estava 100% neste planeta, por isso, eu não lembro exatamente os causos. Mas lembro de algo do tipo "vamos finalizar juntos".
O caderninho com o conto ele deixou na minha casa. Peguei, li e, por falta de um encontro formal pra finalizar o texto, resolvi estuprá-lo (o conto) e finalizar sozinho. 
Ricardo, caso se sinta ofendido por não ter tido oportunidade de opinar, ou de não ter gostado do destino que dei aos personagens, você tem a liberdade soberana de remodificar o post.

Então... Vamos a ele!

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Conto Sem Título

Era uma dessas noites de frio cortante, quando nem os grilos se aventuram a cantar. Havia um homem sentado numa parada de ônibus. Fazia o possível para se esquentar numa noite tão fria, enquanto carros apressados cortavam a quietude de sua solidão. Se o visse, notaria que esse homem tinha uma feição distante, olhos de quem poderia esperar ali por décadas. E ali ele ficou, enquanto a cidade se movia, ele ficou ali parado e observando. Seus olhos eram os de quem remoia algum sentimento do passado, olhos de quem tem raiva de si mesmo.
Se nesse momento você passasse por essa parada e visse esse homem, provavelmente se assustaria pois seus olhos pareciam tramar algo terrível. Mas isso não era verdade. Ele apenas lembrava de seus amigos e de dias mais ruidosos. E um tímido sorriso brotava de sua face. Mas isso logo ia embora e ele praguejava a demora do ônibus. Distraído em suas memórias, foi trazido à tona pelo absurdo barulho do ônibus chegando.
Sem provocar o mínimo ruído, entrou no ônibus, pagou, e seu silêncio foi brutalmente interrompido pela catraca e pelo urro do grande ônibus. Sentou-se. Mas ainda havia um silêncio nele, um denso silêncio como uma noite de neblina. Na verdade, o Estrondo Absurdo dos movimentos do ônibus tornavam esse silêncio ainda mais profundo e impossível. Era um silêncio tão persistente que ele podia falar em voz alta e isso não passaria de um mero sussurro para quem ali estivesse.
 Esse homem parecia agora gradualmente mais apreensivo e ansioso à medida que o ônibus se aproximava do seu destino. Estava visualmente incomodado com aquela melancolia amarga que incomoda no coração.
E ia, que como um cão que percebe a proximidade do dono. Levantou-se de sobressalto e puxou a cordinha dando sinal para parar. Quase se arrebentou com a brusca freada, mas logo já estava caminhando rumo ao seu destino. Pela hora não conseguiria outro ônibus que o levasse até a Asa Norte, o que significava (?) parar na Esplanada e caminhar o resto do trajeto. O que não lhe incomodava de jeito nenhum. Muito pelo contrário. Essa caminhada lhe daria a paz de que precisava, pensava ele. E lá ia ele caminhando por alguns lugares que mais pareciam abandonados do que partes de alguma coisa. Permanecia em completo silêncio, mas algo em suas feições parecia tranquilizar-se à medida que caminhava.
Andava sem a menor pressa. Usava esse momento pra pensar um pouco, e isso o impunha ora uma irritação enérgica, ora uma alegria leve. Foi assim caminhando nessa bipolaridade por aproximadamente uma hora antes de chegar ao seu destino. Como era de se esperar, o fim da via cruzes, era um bar. Não havia nada de especial nesse bar. Talvez, apenas as pessoas e suas histórias. Fora isso, um barzinho pé-sujo e sem-vergonha. Ele se aproximava com cautela, mantinha distância como um caçador experiente.
Foi então que a avistou. Charmosa como sempre! Mas havia algo de diferente em seu jeito de ser. Parecia alheia às conversas e burburinhos que lhe cercavam, mesmo que participasse com risos e comentários. Algo a incomodava, mas ela era boa em disfarçar essas coisas. Não dele. Nunca dele. Ele a conhecia profundamente e sabia que havia algo errado, mas preferia observar o desfecho ao interferir. Decidiu aproximar-se do balcão do bar discretamente para não ser notado. Realmente precisava de uma cervejinha.
Não passou muito tempo até que um grupo de pessoas chegasse à mesa dela. Reconheceu alguns rostos, mas nenhum lhe chamou atenção. Permaneceu distante pois notou que ela estava ancorada no celular pot muito tempo... Esperava por alguém.
A conversa ao telefone a angustiava. Suas sobrancelhas não conseguiam escondê-lo. Ele novamente vai ao balcão pedir outra cerveja para que não o vissem.
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Bebeu-a silenciosamente em uma virada de copo apenas, como de costume. Cada copo, um gole. Cada silêncio, uma garrafa. E, a cada nível emergente de embriaguez, menos invisível ele era. Isso ele não podia evitar, por mínimo que fosse o teor alcoólico da cerveja, por mais tolerância que tivesse às drogas.
Já cansado de bebericar no copo, levou a garrafa de litro à boca, que grudou como uma ventosa. Uma garrafa na vertical, de ponta-cabeça, despejando sua cevada líquida e de baixo teor na cabeça rígida e tolerante, inclinada na horizontal. Esse era seu quadro preferido. Perpendiculares em sua composição geram loucura e alucinação ao resto do corpo que a sustenta. Um corpo arqueado e imerso naquela elegante sensação que é o voo alcoólico. Quando, ao tomar uma larga escala de morte-lenta, a cabeça continua girando para traz até atravessar as costas e regressar ao ponto inicial. Tudo isso, para pensar (silenciosamente) apenas nela, em nada mais.
Finda o denso e extravagante gole. O corpo volta à postura ereta de homo sapiens regular, tonto, mas civilizado. Ele olha para o lado e a enxerga. Ela o encara a uma distância de apenas 5 metros. 5 metros!  Ele a acompanha com os olhos, a desnuda à distância e afaga seus cabelos secos e modernos. Ela parece fixada nele e, o que havia entre os dois, era uma densa camada de eletricidade radioativa. Era o que ele via. E tudo estava inerte, o tempo dilatou-se em centenas de anos. Mas, o primeiro milésimo de segundo desde a primeira olhada em que seus olhos fecharam para lubrificar os olhos desidratados, foi o suficiente para perder controle do magnetismo. Impressionantemente, o tão breve e insignificante momento de escuridão de uma piscada, foi o tempo certo para deixar de acompanhar os movimentos que ela deu para perder o olhar e dar dois passos em direção ao banheiro.
Desiludido e com os olhos pouco mais lubrificados do que o normal, silenciosamente botou a garrafa de litro no balcão, pagou a conta das duas cervejas e seguiu andando. Na sua longa, silenciosa e solitária caminhada pensou nela. Fez juras de amor ultrarromânticas, uivou seu choro infeliz e praguejou contra si. Arrastou-se pelos terrenos baldios do centro. Atravessou cercas, pulou buracos profundos e subiu os degraus de um edifício em construção. Chegou ao terraço e deitou-se ao frio do vento que venta o topo de todo edifício. Lá mesmo ele dormiu coitado e inofensivo. E delirou repetidamente a promessa de nunca, nunca mais piscar, para que nenhum desgraçado milésimo de segundo arruinasse um possível segundo contato com ela.



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